A criança que nunca dá trabalho: devemos preocupar-nos?

“É uma criança tão fácil. Nunca dá problemas.”
É uma frase que muitos pais, professores e educadores dizem com orgulho e, muitas vezes, com razão.
Há crianças tranquilas, cooperantes, reservadas, observadoras. Crianças que não levantam a voz, não interrompem a aula, cumprem regras e raramente entram em conflito. E isso, por si só, não é um problema.
No entanto, será que estamos a confundir uma criança que está bem com uma criança que aprendeu a não mostrar que não está?
Esta não é uma pergunta para criar ansiedade nos adultos. É uma pergunta para nos tornar mais atentos.
Nem todas as dificuldades fazem barulho
Quando pensamos numa criança que está a passar por dificuldades, é frequente imaginarmos comportamentos que chamam a atenção: birras, agressividade, oposição, conflitos, dificuldades de concentração ou problemas de comportamento. Mas nem todas as dificuldades emocionais se manifestam dessa forma.
Na investigação em psicologia, fala-se frequentemente de sintomas internalizantes para descrever manifestações como ansiedade, tristeza, preocupação excessiva, retraimento e outras dificuldades que tendem a ser vividas mais “para dentro”.
Estas dificuldades podem ter impacto na vida escolar. Um estudo realizado com 750 crianças entre os 8 e os 12 anos, encontrou associações entre sintomas internalizantes e pior funcionamento escolar, incluindo desempenho académico e adaptação à escola (Pedersen et al., 2019). Os investigadores encontraram também indícios de que os professores podem ter dificuldade em reconhecer algumas destas manifestações.
A Organização Mundial da Saúde chama igualmente a atenção para o impacto que a ansiedade e a depressão podem ter na frequência escolar, no trabalho académico e nas relações sociais, salientando que o isolamento social pode agravar sentimentos de solidão.
Isto não significa que uma criança tímida, sossegada ou introvertida tenha um problema de saúde mental. Significa apenas que o silêncio não deve ser automaticamente interpretado como sinal de bem-estar.
“Ela é muito madura para a idade…”
Por vezes, estamos perante uma criança que realmente desenvolveu boas competências de autorregulação e autonomia. Noutras situações, porém, podemos estar a elogiar comportamentos como:
- Nunca pedir ajuda;
- Evitar incomodar os adultos;
- Esconder tristeza ou preocupação;
- Aceitar sempre as decisões dos outros;
- Ter um medo excessivo de falhar;
- Procurar constantemente agradar;
- Não expressar desagrado;
- Assumir responsabilidades emocionais que não correspondem à sua idade.
Não podemos concluir, a partir destes comportamentos isolados, que existe um problema. Mas podemos fazer uma coisa muito simples: observar melhor.
Uma criança que nunca levanta a mão pode simplesmente ser tímida. mas também pode ter medo de responder incorretamente.
Uma criança que nunca reclama pode ser muito tranquila, mas também pode ter dificuldade em expressar necessidades.
Uma criança que faz tudo perfeitamente pode ser muito organizada, mas também pode sentir uma enorme pressão para não falhar.
Uma criança que prefere brincar sozinha pode simplesmente gostar de momentos de solidão, mas também pode estar a sentir dificuldades de integração com os pares.
É por isso que devemos evitar interpretações rápidas. O comportamento é informação, não diagnóstico.
Alguns sinais que justificam maior atenção são:
- A criança que começa a isolar-se mais do que anteriormente;
- Perda de interesse por atividades de que gostava;
- Preocupação excessiva com erros ou avaliações;
- Medo intenso de desiludir adultos;
- Necessidade constante de aprovação;
- Dificuldade persistente em pedir ajuda;
- Alterações significativas no sono ou no apetite;
- Queixas físicas recorrentes, sobretudo dores de cabeça ou de barriga associadas a determinados contextos;
- Recusa ou resistência persistente em ir para a escola;
- Diminuição inesperada da participação;
- Queda no rendimento escolar sem explicação evidente;
- Tristeza, tensão ou preocupação que parecem persistir;
- Alterações marcadas no comportamento habitual.
Uma criança que sempre foi reservada não é necessariamente motivo de preocupação.
Uma criança que era participativa, brincalhona e comunicativa e que, de repente, deixa de participar, se isola e parece constantemente preocupada merece que alguém pare para perceber o que está a acontecer. Então, quando as perguntas são demasiado gerais produzem respostas igualmente gerais. Podemos experimentar perguntas mais concretas:
- “Qual foi a melhor parte do teu dia?”
- “E a parte mais difícil?”
- “Houve alguma coisa hoje que te deixou preocupado?”
- “Com quem estiveste no intervalo?”
- “Houve algum momento em que quiseste pedir ajuda e não pediste?”
- “Se pudesses mudar uma coisa na escola, o que mudarias?”
A Ordem dos Psicólogos Portugueses (2026), recomenda precisamente que os adultos criem oportunidades de conversa sobre as experiências da criança e façam perguntas concretas sobre diferentes momentos do dia, sobretudo quando respostas como “bem” ou “normal” encerram rapidamente a conversa. No entanto, não precisamos de transformar todas as conversas numa investigação.
Às vezes, a melhor estratégia é simplesmente criar disponibilidade.
Professores e educadores: reparem também nas crianças que não interrompem!
Na sala de aula, o comportamento que chama a atenção tende a receber mais atenção. É compreensível. Uma criança que interrompe, agride, desafia ou perturba a aula exige uma resposta imediata. Mas talvez seja igualmente importante estar atento a:
- Quem é que nunca pede ajuda.
- Quem sabe a resposta, mas nunca arrisca.
- Quem apaga constantemente aquilo que escreveu.
- Quem evita falar quando existe possibilidade de errar.
- Quem fica sempre sozinho no recreio.
- Quem parece excessivamente preocupado em agradar.
- Quem deixou de participar como participava anteriormente.
A relação professor-aluno pode ser uma importante fonte de proteção. Quando os alunos sentem que os professores se preocupam com eles e os apoiam, tendem a apresentar maior ligação à escola e aos pares. A ligação à escola está, por sua vez, associada a melhores indicadores de saúde e envolvimento escolar.
Não queremos uma escola onde todas as crianças tenham de falar muito, participar constantemente, ser sociáveis e mostrar as emoções da mesma maneira.
Ser reservado ou introvertido não é estar mal. Gostar de brincar sozinho não é estar mal. Não gostar de falar perante toda a turma não é, por si só, um problema. A diversidade de temperamentos faz parte da infância. Uma criança pode preferir observar antes de participar e sentir-se perfeitamente confortável. Outra pode permanecer calada porque está aterrorizada com a possibilidade de errar.
A questão muda quando existe sofrimento, mudança significativa ou interferência na vida da criança.
E quando devemos procurar ajuda?
Por fora, podem parecer iguais.
Por dentro, não são.
Não é necessário esperar que uma criança esteja em sofrimento intenso para procurar orientação. É aconselhável conversar com profissionais quando as dificuldades:
Persistem ao longo do tempo;
interferem com a escola, sono, relações ou atividades;
Provocam sofrimento, representando uma mudança significativa em relação ao funcionamento habitual;
Quando os adultos responsáveis sentem uma preocupação persistente que não conseguem esclarecer;
A procura de ajuda não significa que exista necessariamente uma perturbação.
Significa que não precisamos de esperar para ter certezas quando podemos começar por pedir orientação.
Porque uma criança pode ser extremamente bem-comportada e, ainda assim, estar a precisar que alguém repare nela.
E talvez esta seja uma das maiores responsabilidades dos adultos que educam:
não olhar apenas para as crianças que pedem atenção, mas também aprender a reconhecer aquelas que sofrem em silêncio.
Uma criança tranquila não é, por definição, uma criança preocupante. Mas uma criança que mudou, que se isola, que sofre, que deixa de fazer aquilo de que gostava ou que parece constantemente preocupada merece ser escutada.
O silêncio não é um diagnóstico. Mas também não deve ser confundido automaticamente com bem-estar.
Marta Neto |Cédula Profissional – OPP Nº29547|
Nota: Este artigo tem caráter educativo e não substitui avaliação de profissionais de saúde ou de saúde psicológica. Sinais isolados não permitem diagnosticar ansiedade, depressão ou qualquer outra perturbação.
Referências Bibliográficas:
Centers for Disease Control and Prevention. (2024, August 28). Teacher caring and support. https://www.cdc.gov/classroom-management/approaches/teacher-caring-support.html
Direção-Geral da Saúde. (2026). Programa Nacional de Saúde Escolar. https://www.dgs.pt/paginas-de-sistema/saude-de-a-a-z/programa-nacional-de-saude-escolar.aspx
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2026). Checklist sobre crianças e adolescentes: Para pais, cuidadores e professores. https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/checklist_criancasadolescentes.pdf
Pedersen, M. L., Holen, S., Lydersen, S., Martinsen, K., Neumer, S.-P., Adolfsen, F., & Sund, A. M. (2019). School functioning and internalizing problems in young schoolchildren. BMC Psychology, 7, 88. https://doi.org/10.1186/s40359-019-0365-1
Wilkins, N. J., Verlenden, J. M. V., Szucs, L. E., & Johns, M. M. (2023). Classroom management and facilitation approaches that promote school connectedness. Journal of School Health. https://doi.org/10.1111/josh.13371


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