Divórcio com filhos: estratégias para uma adaptação saudável
- Marta Neto

- 23 de abr.
- 4 min de leitura

Um processo de divórcio é diferente quando temos filhos/as. Nesta situação não é possível haver um afastamento total do/a ex-cônjuge e é necessário reorganizar não apenas a relação connosco próprios, mas também com o/a ex-cônjuge e os nossos filhos/as. O divórcio também pode ser uma experiência difícil e stressante para os filhos/as que, frequentemente, veem o seu mundo “virado de pernas para o ar”. As crianças e os jovens podem sentir-se chocados, confusos, zangados, com medo e muito tristes. Alguns podem mesmo culparem-se pelo divórcio dos pais. No entanto, a evidência científica demonstra que, ao fim de um período que pode durar entre um e dois anos, a maior parte das crianças se adapta bem à situação. Pior do que viver com os pais separados é viver com pais que mantêm uma relação disfuncional e conflituosa e que se (auto)destroem mutuamente
Como contar aos filhos/as que os pais se vão divorciar?
Após a decisão ser tomada, é importante explicar aos nossos filhos/as que os pais se vão divorciar. Devemos considerar:
Falar em família. A mensagem deve ser transmitida pelos dois progenitores, de forma calma e consistente
Dar explicações simples. O importante é entenderem que foi a decisão que os pais consideraram ser mais acertada para que todos pudessem continuar a ser felizes. Deverá ser tida em conta a idade e a maturidade da criança, adequando o discurso às suas características e necessidades.
Reforçar que os/as amamos. As crianças/ jovens podem ter medo de perder um ou ambos os progenitores. É importante reforçar que ambos continuam a amá-los/as e que continuarão sempre a protegê-los/as e a cuidar deles/as
Assumir toda a responsabilidade. As crianças podem sentir-se culpadas pelo divórcio dos pais. É importante reforçar que a decisão do pai e da mãe se separarem veio deles e devido a razões que nada têm que ver com os filhos/as.
Reconhecer e falar sobre mudanças. É importante reconhecer que algumas coisas na vida das crianças/jovens serão diferentes, recordando a criança/jovem de que, juntos, lidarão com o que for acontecendo.
Transmitir calma e segurança. Transmitir uma atitude calma, compreensiva e securizante perante as dúvidas e incertezas da criança/jovem. O mais importante, por vezes, não é dar uma resposta, uma solução, e sim dar segurança à criança/jovem e garantir que não está sozinha/o.
Demonstrar respeito pelo outro progenitor. É fundamental para a saúde psicológica e o bem-estar das crianças/jovens perceber que o pai e mãe continuarão a cuidar deles em conjunto, respeitando-se um ao outro.
O que podemos esperar de crianças em idade pré-escolar?
Nervosismo, zanga ou medo, o que se pode expressar indiretamente através de choro, irritabilidade ou apego excessivo.
Regressão nos seus comportamentos: por exemplo, crianças que dormiam a noite toda podem começar a acordar a meio da noite.
Dificuldade em compreender porque têm de alternar entre duas casas.
Pensamentos sobre se os progenitores deixarem de gostar um do outro, é possível que um dia deixem de gostar delas.
O que podemos esperar em crianças em idade escolar?
Manifestação de tristeza, ansiedade, raiva ou medo.
Demonstrar que têm saudades do progenitor que saiu de casa.
Sentir dificuldades na aquisição de competências escolares.
Culpabilizarem-se pela separação.
O que podemos esperar em adolescentes?
Tristeza, raiva ou afastamento.
Resistência em cooperar nas rotinas familiares.
Diminuição do desempenho escolar.
Alterações no sono ou na alimentação.
Perda de interesse em atividades que antes apreciavam.
Desafiar as regras da escola ou passar muito tempo sem dizer aos progenitores onde se encontram.
Culpar um ou ambos os progenitores pelo divórcio.
Exibir comportamentos de risco, tais como consumo de substâncias, atividade sexual precoce ou pequenos furtos.
Como podemos ajudar os nossos filhos/as a lidar com o divórcio?
Escutar e validar emoções. Incentive a criança a expressar o que sente e mostre disponibilidade para ouvir, sem julgamento.
Continuar a falar sobre o divórcio. Quando as crianças levantam preocupações ou ansiedades, responda-lhes com sinceridade. Se não souber a resposta, diga gentilmente que não sabe ou ainda não sabe, mas que vão descobrir e procurar soluções juntos.
Garantir proximidade e segurança. A proximidade física, sob a forma de abraços, ou a simples presença no mesmo espaço podem ser importantes e garantir à criança que é amada.
Oferecer estabilidade e uma atitude positiva e segura. Manter, dentro do possível, as rotinas da criança/jovem pode ajudá-las a perceber que continuam a ter estabilidade, estrutura, cuidado e a presença de ambos os pais na sua vida.
Manter regras e disciplina. Resista à tentação de não impor limites ou deixá-la/o quebrar as regras para a/o “compensar”.
Cooperar com o outro cônjuge. Manter uma boa relação e uma comunicação saudável com o ex-parceiro/a pode ajudar as crianças a sentir que ambos os pais continuam a amá-la e a cuidar dela.
Conversar com os professores. Os professores dos nossos filhos/as também os acompanham no dia-a-dia e podem identificar mudanças nos comportamentos, relações e aprendizagens, sinalizando quando algo não estiver bem.
Cuidar de si. Num processo de divórcio é preciso cuidar de si para poder cuidar dos seus filhos/as.
Quando procurar ajuda?
Embora reações emocionais sejam esperadas, é importante estar atento à sua evolução. Se os sinais de ansiedade, tristeza ou isolamento persistirem por vários meses, agravarem ou tiverem impacto significativo no dia a dia, deve ser considerada a procura de apoio psicológico.
Marta Neto |Cédula Profissional, Nº 29547|

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