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Os miúdos não precisam de pais perfeitos, mas sim autênticos!

  • Foto do escritor: Marta Neto
    Marta Neto
  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

Quem nunca engoliu o choro à frente dos filhos ou respirou fundo repetidamente antes de entrar na sala de aula, prometendo a si mesmo que nada do que estava a sentir transpareceria para as crianças? Na educação, assim como em várias áreas do nosso quotidiano, fomos alimentados com o mito do "adulto pilar", aquela figura inabalável, eternamente calma, segura e detentora de todas as respostas. Existe uma pressão invisível, mas esmagadora, que dita que mostrar cansaço, tristeza ou frustração aos mais novos é um sinal de fraqueza ou uma falha na nossa missão de proteger.


No entanto, a psicologia do desenvolvimento e as neurociências têm vindo a demonstrar precisamente o oposto: a busca incessante pela perfeição parental e educativa não só é utópica, como pode ser contraproducente para o crescimento emocional das crianças. Os nossos filhos e alunos não precisam que sejamos super-heróis blindados; precisam que sejamos humanos.

 

O "Pilar Inabalável" e o Conceito do "Suficientemente Bom"

A ideia de que temos de ser perfeitos para criar crianças saudáveis não é nova, mas foi vigorosamente desmistificada em meados do século XX por um dos nomes mais influentes da pediatria e da psicanálise britânica: Donald Winnicott. Ao observar a relação entre mães e bebés, Winnicott cunhou um conceito libertador que permanece um pilar na psicologia atual: a "Mãe Suficientemente Boa" 


Winnicott defendia que a mãe ideal não é aquela que satisfaz prontamente todas as necessidades de forma impecável, mas sim aquela que falha de forma gerível e gradual. Numa fase inicial da vida, a dedicação quase total é necessária. Contudo, à medida que a criança cresce, as pequenas falhas e imperfeições do adulto, o cansaço visível, a incapacidade de resolver um problema de forma imediata, são elementares.


Porquê? Porque são essas pequenas e controladas quebras de expectativa que introduzem na criança no princípio da realidade. É através da imperfeição dos pais que a criança aprende a tolerar a frustração, a desenvolver a paciência e a perceber que o mundo não gira em torno dela. Quando tentamos ser pais ou educadores "perfeitos", estamos a privar os mais novos do melhor laboratório que eles têm para treinar a resiliência.


A perfeição cria uma ilusão de um mundo sem falhas, preparando mal a criança para a vida real. Ser um cuidador "suficientemente bom" significa aceitar a própria humanidade e as suas limitações, transformando-as numa ferramenta pedagógica.


O Perigo da Incongruência Emocional: O que a Ciência nos diz

Muitas vezes, a nossa intenção ao esconder a tristeza ou a preocupação é a melhor de todas: queremos proteger a infância e evitar que os nossos filhos ou alunos carreguem fardos que não lhes pertencem. No entanto, a neurobiologia demonstra que o cérebro das crianças funciona como um detetor de alta precisão para a mentira emocional. Esconder o que sentimos gera um fenómeno a que a psicologia chama incongruência emocional, e as suas consequências não são o que esperamos.


A explicação para isto reside, em grande parte, no nosso sistema de neurónios-espelho. Estas células cerebrais são responsáveis pela nossa capacidade de empatia: elas disparam não só quando realizamos uma ação ou sentimos uma emoção, mas também quando observamos outra pessoa a fazê-lo. Graças a este sistema, as crianças são autênticas "esponjas" capazes de ler microexpressões faciais, a tensão postural e as subtis variações no tom de voz dos adultos.


Quando um pai ou um professor está profundamente ansioso, irritado ou triste, mas exibe um sorriso forçado e diz "Está tudo bem, não se passa nada", o cérebro da criança entra em curto-circuito. Ela capta os sinais fisiológicos de stress do adulto (através dos neurónios-espelho), mas recebe uma mensagem verbal oposta.


Esta falta de sintonia emocional foi brilhantemente demonstrada no clássico paradigma do Still Face (Cara de Pedra), desenvolvido pelo psicólogo americano Edward Tronick. Nos seus estudos sobre o desenvolvimento do apego, Tronick filmou mães a interagirem de forma expressiva com os seus bebés e, logo a seguir, a adotarem uma expressão facial completamente neutra e imóvel (máscara). Em poucos segundos, os bebés começavam a demonstrar sinais visíveis de stress, tentando desesperadamente recuperar a ligação e, quando falhavam, desorganizavam-se emocionalmente.


Embora o estudo original tenha sido feito com bebés, o princípio mantém-se ao longo do crescimento: quando os adultos mascaram as suas emoções, as crianças sentem a tensão no ambiente, mas não compreendem a causa. O cérebro infantil, que ainda está a aprender a mapear o mundo, tende a tirar a pior conclusão possível: "Se o meu pai/professor está assim e diz que não é nada, o problema devo ser eu". A incongruência gera uma sensação de insegurança e desconfiança. As crianças não precisam de adultos sem problemas; precisam de clareza para compreenderem o mundo que as rodeia.

 

 

 A Vulnerabilidade como Superpoder Educativo

Se esconder as emoções gera insegurança, qual é a alternativa? A resposta não passa por descarregar as nossas frustrações de adultos sobre as crianças, mas sim por abraçar a vulnerabilidade. Durante décadas, fomos ensinados que ser vulnerável era o mesmo que ser fraco. No entanto, a investigação contemporânea veio revolucionar esta perspetiva.


A psicóloga e investigadora social Brené Brown, que dedicou mais de duas décadas ao estudo da vulnerabilidade, da coragem e da vergonha, defende que a vulnerabilidade é a definição mais exata de coragem. Nas suas palavras, ser vulnerável significa ter a capacidade de aparecer e ser visto, mesmo quando não controlamos o resultado. Na educação, isto traduz-se em deixar cair a máscara da infalibilidade.


Quando um pai, uma mãe ou um professor assume perante a criança: "Hoje o meu dia foi muito difícil no trabalho e sinto-me frustrado, por isso preciso de dez minutos para respirar antes de podermos brincar/começar a aula", acontece uma transformação pedagógica profunda. Neste preciso momento, o adulto está a usar a sua vulnerabilidade como um superpoder por duas razões fundamentais:


Primeiro, porque promove a normalização emocional. A criança percebe que sentir raiva, tristeza ou cansaço não é um erro de percurso, nem um sinal de que algo está errado com ela ou com o mundo; é simplesmente parte da experiência humana. Retira-se o peso da culpa.


Segundo, porque oferece um modelo vivo de autorregulação. A criança não aprende a gerir as suas emoções a ouvir discursos teóricos, mas sim a observar como os adultos significativos navegam pelas suas próprias tempestades. Ao ver que o adulto sente a emoção difícil, a nomeia, mas não perde o controlo nem se torna agressivo, a criança recebe um guião prático de inteligência emocional.


Esconder a nossa vulnerabilidade priva as crianças de verem o processo de superação. Se fingirmos que nunca caímos, como é que elas vão aprender a levantar-se? Mostrar que falhamos, que hesitamos, mas que conseguimos encontrar o caminho de volta à calma, é a aprendizagem mais corajosa e empática que podemos deixar.

 

Como passar da "Perfeição" à "Autenticidade"

Mudar o paradigma de "adulto infalível" para "adulto autêntico" exige treino. Não se trata de descarregar os nossos problemas nas crianças, mas sim de partilhar o processo de gestão dessas dificuldades. Deixamos aqui algumas estratégias concretas, desenhadas especificamente para o ambiente familiar e para o contexto escolar.


Para os Pais em Casa: A Arte da Reparação e da Narração

  • Pratique a "Reparação de Relações": Todos os pais perdem a paciência. Se um dia o cansaço acumulado o fez gritar ou reagir de forma desproporcionada, não finja que nada aconteceu. Assim que recuperar a calma, restabeleça o vínculo. Aproxime-se do seu filho e diga: "Desculpa ter gritado contigo há pouco. O meu dia de trabalho foi muito difícil, eu estava exausto e acumulei muita frustração. A culpa não foi tua.”

Este ato de reparação baseia-se diretamente na teoria do apego seguro: ensina à criança que os conflitos acontecem, mas que as relações se reparam e que o amor permanece seguro.


  • Narração Emocional em Voz Alta: Use o seu dia a dia como um palco pedagógico. Se está preso no trânsito ou se algo correu mal na cozinha, em vez de se isolar em silêncio ou explodir, narre o que está a fazer para se acalmar: "Estou a sentir o meu corpo muito tenso porque estamos atrasados. Vou ligar o rádio, ouvir uma música calma e respirar fundo três vezes para me ajudar".

Está a dar-lhes um manual de instruções ao vivo.

 

Para os Professores na Escola: Desmistificar o Erro e Humanizar a Liderança

  • Assuma o Erro Pedagógico com Leveza: Na sala de aula, a pressão para saber tudo é enorme. Se cometer um erro ao escrever no quadro, se se enganar numa data ou na resolução de um problema, e um aluno o corrigir, resista à tentação de se defender. Celebre o momento: " Tens toda a razão, obrigado por reparares! O meu cérebro hoje ainda estava focado na aula anterior e baralhou-se. Que bom estares atento!".

Ao fazer isto, o professor desconstrói o medo do erro e a ansiedade de performance. Os alunos percebem que falhar faz parte do processo de aprendizagem, libertando-os para arriscar mais.

 

  • Partilhe a Humanidade da Profissão: No início de uma aula, especialmente após um intervalo confuso ou num dia de chuva em que a turma está agitada, valide o ambiente partilhando o seu próprio estado: "Hoje sinto que a nossa energia está muito dispersa e confesso que também estou com menos paciência do que o habitual. O que acham de fazermos dois minutos de silêncio ou uma respiração coletiva para nos sintonizarmos antes de começar?".

Isto cria uma ponte de empatia imediata. Os alunos tendem a colaborar muito mais quando sentem que o professor não está a impor poder, mas sim a pedir cooperação.

 

 

Conclusão:

Educar, seja no aconchego do lar ou na azáfama de uma sala de aula, nunca foi sobre perfeição. O verdadeiro sucesso pedagógico e parental não se mede pela ausência de conflitos, de lágrimas ou de dias cinzentos, mas sim pela capacidade de navegar por eles de cabeça erguida e coração aberto.

 

O maior legado emocional que podemos deixar aos nossos filhos e alunos não é a imagem ilusória de um adulto perfeito que nunca erra, nunca chora e nunca hesita. O maior legado é dar-lhes o mapa detalhado de um ser humano real. Alguém que, mesmo sentindo medo, cansaço ou frustração, sabe como nomear o que sente, como pedir desculpa quando falha e como encontrar o caminho de volta à calma. Ao darmos a nós próprios a permissão para sermos vulneráveis, estamos, finalmente, a dar-lhes a eles a permissão para crescerem seguros, resilientes e profundamente humanos.

 

"A vulnerabilidade é o primeiro lugar onde procuro em ti, mas o último lugar onde quero olhar em mim." Brené Brown

 

Marta Neto |Psicóloga, Cédula Profissional, Nº 29547|

 

Referências Bibliográficas:

Bowlby, J. (1989). Uma base segura: Aplicações clínicas da teoria do apego. Martins Fontes.

Brown, B. (2012). A coragem de ser imperfeito: Como a aceitação da nossa própria vulnerabilidade transforma a forma como vivemos, amamos, educamos e lideramos. Sextante Editora.

Rizzolatti, G., & Sinigaglia, C. (2008). Mirrors in the brain: How our minds share actions and emotions. Oxford University Press.

Siegel, D. J., & Bryson, T. P. (2015). O cérebro da criança: 12 estratégias revolucionárias para nutrir a mente em desenvolvimento do seu filho. Lua de Papel.

Tronick, E., & Gold, C. M. (2020). The power of discord: Why the ups and downs of relationships are the secret to building intimacy, resilience, and trust. Little, Brown Spark.

Winnicott, D. W. (2000). A criança e o seu mundo (6.ª ed.). LTC. (Obra original publicada em 1964).

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