Entrevista a Ana Gabriela Cabilhas
Um exemplo de perseverança na gestão da Federação Académica do Porto

Nasceu há 23 anos na freguesia da Branca, Albergaria à Velha. Hoje preside à maior academia de estudantes do país, que abrange mais de 70 mil estudantes.

 

Ana Gabriela Cabilhas licenciou-se em Ciências de Nutrição pela FCNAUP, e a paixão por quem quer servir o outro levou-a a candidatar-se à presidência da Federação Académica do Porto.

 

A perseverança tem sido o seu aliado fundamental para conseguir conciliar, com sucesso, a sua vida de estudante como mestranda em Ciências do Consumo e Nutrição, com a gestão da maior estrutura estudantil do país, num ano particularmente desafiante, fruto de todos os condicionalismos que a pandemia gerou. Sempre que possível, desloca-se à sua terra natal para recarregar baterias.

É na freguesia da Branca, Albergaria-a-Velha que consegue receber o “oxigénio” que lhe permite ter a energia necessária para enfrentar os desafios que a sua posição como presidente da FAP exige.

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Quais os motivos que a levaram a escolher a cidade do Porto para prosseguir com a sua formação académica?

Na verdade, a escolha pela Universidade do Porto pode ser vista como uma consequência natural e resultante do meu ingresso no Curso de Ciências da Nutrição.

Como foi a adaptação a essa nova realidade?

Enfrentar essa realidade foi muito importante para o meu crescimento enquanto pessoa. Em primeiro lugar porque iniciei uma vida independente e, por isso, responsável por todos os meus atos. Em segundo lugar foi uma experiência única de ter que enfrentar todos os desafios que uma cidade como o Porto incorpora em si mesma. De um dia para o outro vi-me, sozinha, a ser confrontada com um mundo novo. A dimensão e o frenesim da cidade do Porto em nada se comparam com a cidade que me viu nascer. O Mundo estava ali e eu tinha que o enfrentar sozinha. Tudo era novo a começar pelas redes de transportes, as rotinas académicas, o contexto social, os amigos. O mais difícil era a noite em que sentia a falta do aconchego da minha família. Mesmo assim penso que esta transferência foi mais difícil para os meus pais.

Mas com o tempo fui adaptando o meu estilo de vida à realidade onde vivia. E descobri no associativismo estudantil uma segunda casa no Porto e, sem dúvida, uma fonte de realização imensa! Hoje sinto-me bem nesta cidade, costumo dizer que já tenho alma portuense, mas sem nunca esquecer, como é óbvio, as minhas raízes.

Albergaria-a-Velha é o seu “Porto de Abrigo”?

Sim, sem dúvida. É na minha freguesia que tenho os meus amigos de infância, pais e outros familiares, que me dão o carinho e o conforto que necessito. Acresce que, sendo filha de comerciantes tradicionais, muitas horas da minha vida foram passadas no estabelecimento comercial dos meus pais. Esta circunstância permitiu-me criar laços com um conjunto alargado de pessoas que, ainda hoje, me reconhecem e têm a simpatia de demonstrar o seu carinho quando nos cruzamos. Estas manifestações de reconhecimento são revitalizantes e um alento para a “alma” que me incentivam a continuar a dedicar o meu tempo a lutar pelas matérias que, convictamente, acredito.

Depois de terminada a licenciatura seguiu, de imediato, para Mestrado, qual é o foco que pretende dar à sua carreira profissional?

 

Depois de finalizar o mestrado pretendo ingressar no mercado de trabalho numa dinâmica que permita desenvolver um projeto de índole mais coletivo, como a promoção da saúde pública, em detrimento de uma dimensão mais individualizada. Um nutricionista não tem como função única emagrecer pessoas! Pretendo trilhar um percurso que estará muito ligado ao estudo e desenvolvimento de políticas na área da nutrição, valorizando a alimentação saudável numa visão holística de saúde.

Vai regressar a Albergaria-a-Velha para concretizar esse percurso profissional?

Nesta primeira fase tentarei o mercado de trabalho na cidade do Porto. Um dia, quem sabe, se não irei trabalhar para a região centro. Não fecho portas!

A sua formação em Nutrição, conjugada com a sua qualidade de presidente da FAP permitem-lhe ter, naturalmente, acesso a uma visão muito mais abrangente quanto às problemáticas de saúde que afetam a nossa sociedade. Na sua opinião existe ou não uma verdadeira política alimentar em Portugal?

Infelizmente ainda não existe uma política e estratégia alimentar concreta nem definida, quer a nível nacional e local. É por isso mesmo que, nesse contexto se tem debatido sobre o que falta fazer e o que deve ser melhorado, qual o papel que as instituições, incluindo as de ensino superior e os diversos agentes de saúde devem desempenhar neste domínio. Na Academia do Porto, tivemos situações de carência alimentar de estudantes como resultado dos constrangimentos financeiros durante a pandemia, uma realidade incompreensível aos dias de hoje e que demonstra que a insegurança alimentar carece de atenção e que os nutricionistas são importantes nos serviços de ação social escolar

Existe, então, muito trabalho a desenvolver sobre a promoção da alimentação saudável?

Há que começar por investir e valorizar o papel dos nutricionistas, através da sua contratação. E existe ainda todo um percurso que tem de ser percorrido nas áreas da sensibilização literacia e educação alimentar da população, mas também na capacitação individual e coletiva.

Neste domínio, as autarquias têm assumido um papel de especial relevo na implementação de políticas públicas de combate à obesidade, e envolvendo consigo vários atores.

Esta matéria deveria começar nas escolas?

 

É por aí que se tem de começar. Pelos mais novos, crianças, jovens e suas famílias. Devem existir núcleos de Nutricionistas nos agrupamentos escolares para trabalhar a prevenção de doenças crónicas não transmissíveis como resultado de má alimentação e fomentar a tomada de decisões informada. Ou seja: existe uma grande janela que necessita de ser trabalhada, assim como nos Centros de Saúde.

Ana Gabriela Cabilhas

Quais os principais eixos de intervenção que considera como importantes para a promoção de uma alimentação saudável?

O primeiro e mais importante eixo de intervenção é aquele que deve ser assumido pelas próprias famílias, no seu papel de educadores. Neste domínio é importante que exista um acompanhamento e uma sensibilização das famílias para a componente alimentar. Por outro lado, o ecossistema escolar deve, ele próprio, ser capaz de disponibilizar e ser dotado de instrumentos que permitam complementar e auxiliar a estrutura familiar. Adaptar a oferta alimentar nas escolas é um passo fundamental, que deve ser acompanhada pelo papel ativo dos Nutricionistas na sua intervenção comunitária. Conciliar estas componentes apresenta-se como vital na formação das crianças para adoção de hábitos alimentares saudáveis ao longo de todo o percurso de vida. educativo.

A Pandemia alterou hábitos alimentares?

A pandemia teve impacto no que os portugueses comeram, nos seus hábitos alimentares, relembrando que a obesidade também é uma pandemia.  Muito. Durante o confinamento as pessoas começaram a valorizar mais a alimentação.

É importante entender que os problemas começam, na generalidade, a dar os seus sinais na vida adulta. Somente quando surgem os primeiros sintomas é que as pessoas começam a dar importância a esta vertente da saúde. Mas muitas vezes é tarde de mais. A falta de estratégia preventiva e a falta de literacia no âmbito da saúde são, na maioria das vezes, os precursores de doenças que poderiam ser evitadas. Os Nutricionistas fazem muita falta para o bem-estar das populações.

Quer dizer que os fatores de risco aumentaram?

Sem dúvida. Em Portugal, os hábitos alimentares inadequados são dos fatores de risco que mais contribuem para o total de anos de vida saudável perdidos.

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Passemos agora à sua função. É difícil ser Presidente da Federação Académica do Porto (FAP)?

Não é difícil, mas requere muito trabalho e dedicação. Os problemas dos estudantes são muitos e dispares. E a minha geração apresenta desafios acrescidos para a concretização do seu projeto de vida e eu quero dar voz a estes problemas, mas também apresentar soluções quando estou sentada à mesa com decisores políticos. Por isso é um cargo de muita responsabilidade.

Neste período de pandemia disse que os professores, na generalidade, não conseguiram adaptar-se a este flagelo?

Faltou, sobretudo, inovação pedagógica e digital e apoio psicológico e psicopedagógico para combater o abandono escolar. Tínhamos alguma esperança em métodos inovadores para o ensino à distância. Infelizmente isso não aconteceu. A Academia, infelizmente, não estava preparada para esta situação. É verdade que tivemos boas respostas por parte de docentes mas tivemos também más respostas.

O que falhou, na sua opinião?

Em janeiro, por exemplo, já era expectável algum processo de mudança como resultado da aprendizagem e experiência. A verdade é que isso não aconteceu. Existiu uma ausência, quase de competências, quer a nível pedagógico, mas também a nível de competências digitais. Tivemos aulas em ZOOM em que eram os próprios estudantes a dar informações aos professores para lidarem com esta nova realidade digital, já para não falar do modelo altamente expositivo.

Uma das matérias que é sempre uma das preocupações fundamentais dos estudantes é a questão do alojamento.  Como gere a FAP a falta de alojamento para estudantes?

A crise de alojamento estudantil surge, com grande força, em 2019. Durante a pandemia, e com o esforço financeiro das famílias, uma grande parte dos estudantes deslocados mantiveram o seu alojamento. Os preços agora praticados começam a ser iguais aos da pré-pandemia, uma situação que preocupa a FAP. Continuamos a lutar para a execução do Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior, cujos resultados estão aquém das expectativas e a pugnar por complementos de apoio aos estudantes deslocados. Continua a existir muita procura, mas há falta de oferta e oferta a preços insustentáveis e muitas vezes sem condições dignas.

Os estudantes do Porto têm voz?

Têm através da FAP, que marca presença em todos os fóruns de representação estudantil e de discussão e que tem um olhar atento e sério. Mas queremos aumentar essa voz e que a mesma seja ouvida e valorizada, cada vez mais relevante no panorama nacional. Pretendemos ainda uma maior sinergia entre os representantes dos estudantes, as Instituições de Ensino Superior, decisores políticos e tutela. Todos estes objetivos irão trazer, por certo, mais benefícios para aqueles que serão os cidadãos de amanhã.

A FAP fez uma concentração simbólica nos Aliados, qual foi o objetivo?

A nossa recente ação que foi de facto simbólica, na Avenida do Aliados, pretendeu alertar o ministério da tutela para as questões de saúde mental que impactaram os estudantes durante o período pandémico. Isto é particularmente importante porque cerca de 80 por cento dos estudantes que foram inquiridos pela FAP tinham manifestado um agravamento dos sinais de angustia, depressão. A saúde mental precisa de ser valorizada no ensino superior.

Para além de Presidente da FAP ocupa um alto cargo na Universidade do Porto. Qual a sua importância para os estudantes da Academia?

É verdade. Represento os estudantes no Conselho Geral da Universidade do Porto.

A participação dos estudantes na gestão e definição das políticas das Instituições de Ensino deve ser valorizada. Temos procurado fazer notar que a representação dos estudantes neste órgão deve aumentar, pois somos centrais no presente e no futuro destas.

Também procuro fazer ver a importância do movimento associativo estudantil.

Desde o momento que entrei na Associação de estudantes da minha faculdade, logo no segundo ano, sempre acreditei que os estudantes deveriam estar representados naquele órgão. As propinas, as políticas de ação social, a formação académica, entre outras, são matérias que são discutidas naquele fórum e que devem ter a perspetiva de quem representa os estudantes, para além da reflexão sobre a inclusão da visão dos estudantes nas estratégias institucionais.

Uma das críticas que o tecido empresarial faz às Universidades é que o conhecimento transmitido aos alunos não os prepara para o mercado de trabalho. Concorda com esta critica?

Necessitamos de mais inovação pedagógica e de modelos de aprendizagem que trabalhem mais o pensamento crítico e que preparem melhor a integração no mercado de trabalho, incluindo os estágios. Os consórcios e parcerias entre Universidades, Politécnicos e empresas são também muito relevantes, com diferenciação entre os diferentes subsistemas e sobre o saber-saber e saber-fazer. É importante que na integração no mercado de trabalho, os diplomados consigam levar o conhecimento, a ciência e a inovação para a sua prática diária, transferindo o que de melhor se faz na Academia, para as empresas, pequenas e médias inclusive, fazendo progredir o nosso país, por tornar o tecido empresarial e produtivo mais competitivo.

Estou convicta que o Conselho Geral, podendo integrar personalidades externas, também do domínio empresarial poderá ser um importante instrumento para aproximar as empresas da Academia e trabalhar sensibilidades.

Como começou o interesse pelo associativismo?

No secundário não existia, na altura, o estímulo ao associativismo. Nem na Branca, nem em Albergaria à Velha. Este meu empenho na vida associativa deveu-se, sobretudo, à necessidade de integração ao ensino superior e à cidade do Porto. Quando terminava as aulas, apesar de usufruir de uma excelente camaradagem na minha residência, faltava-me algo, e sobrava muito tempo. Tive um convite para fazer parte de uma lista de associação de estudantes, porque tinha boas notas, e aceitei. Descobri, então, que gostava do papel e da missão de ser dirigente associativo. E aqui estou eu… Feliz!

Ou seja: o seu curriculum associativo ficou ainda mais rico. Sente agora alguma apetência para a vida política?

Eu trabalho em política educativa diariamente. O futuro é sempre incerto, mas também repleto de surpresas. Não fecho portas. Estou sempre disponível para contribuir com os meus conhecimentos e a minha experiência seja nas autarquias, no parlamento ou Governo, ou até a nível internacional.

Para finalizar, que mensagem gostaria de deixar a todos os jovens de Albergaria-a-Velha que estão no sistema de ensino?

Estudar vale mesmo a pena! Eu já estive no vosso lugar e a Academia do Porto é o palco certo para a concretização dos meus sonhos.

Ana Gabriela Cabilhas

Entrevista realizada em 20 de setembro de 2021