Crianças e jovens no processo de luto: o silêncio que não protege
- Marta Neto

- há 2 horas
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A perda é uma das poucas certezas da vida, mas continua a ser o maior tabu da nossa sociedade, especialmente quando falamos de infância e adolescência. Instintivamente, quando uma família ou uma comunidade escolar enfrenta uma morte, o primeiro impulso dos adultos é proteger os mais novos. Cria-se, muitas vezes sem intenção, uma "conspiração do silêncio": evitam-se conversas, escondem-se as lágrimas e esquivamo-nos das perguntas difíceis.
No entanto, a ciência demonstra que este silêncio não protege; pelo contrário, isola. As crianças e os jovens sentem a perda e a dor ao seu redor e, quando não encontram espaço para falar sobre ela, preenchem os vazios com medos e fantasias.
Apoiar os mais novos no luto não passa por poupá-los à dor, mas sim por caminhar ao lado deles através dela. Com base nos principais modelos científicos da psicologia do luto, exploramos como o fazer de forma segura e saudável.
O Desenvolvimento Cognitivo: Como a Criança Entende a Morte?
A forma como uma criança reage à perda depende diretamente da sua maturidade cognitiva. O psicólogo Jean Piaget explicou que o pensamento infantil passa por diferentes fases, e a compreensão da morte acompanha essa evolução:
Até aos 5 anos: A criança não compreende a irreversibilidade da morte. Para ela, a morte é temporária ou um estado de sono profundo. É por isso que uma criança pequena pode perguntar repetidamente quando é que a pessoa que faleceu vai voltar.
Dos 7 aos 9 anos: Desenvolve-se a noção de que a morte é permanente, universal (todos os seres vivos morrem), e inevitável.
O perigo do "Pensamento Mágico": Nesta transição, é comum as crianças recorrerem ao pensamento mágico. Se não houver uma explicação clara, uma criança pode acreditar que um comportamento seu, ou um pensamento menos bom, causou a morte da pessoa (ex: "O meu avô morreu porque eu fiz uma coisa má ontem"). Daí a urgência de uma comunicação honesta e literal.
O Luto Não é Linear: O Modelo do Processo Dual
Durante muito tempo, acreditou-se que o luto seguia uma linha reta de fases sucessivas. Hoje, a neurociência e a psicologia do luto rejeitam essa visão rígida. O modelo mais aceite atualmente na comunidade científica é o Modelo do Processo Dual, desenvolvido pelos investigadores Margaret Stroebe e Henk Schut.
Segundo este modelo, o luto saudável é um processo dinâmico de oscilação entre duas dimensões:
Orientação para a Perda: Momentos focados na dor, no choro, nas saudades e na expressão da tristeza.
Orientação para a Restauração: Momentos em que a atenção se vira para a vida quotidiana, para a escola, para a brincadeira e para as atividades de lazer.
Na infância, esta oscilação é impressionantemente rápida. Uma criança pode chorar desalentadamente pela perda da avó e, dois minutos depois, perguntar com entusiasmo se pode ir jogar futebol ou lanchar. Isto não significa que ela não se importa ou que já esqueceu. É o cérebro infantil, ainda em desenvolvimento, a fazer uma autorregulação saudável: a dor do luto é tão intensa que a criança precisa de fazer pausas nela para conseguir processá-la.
Levar ou Não as Crianças ao Funeral?
Esta é, talvez, a pergunta mais frequente e que mais gera divisão no seio familiar. Historicamente, afastar as crianças dos rituais fúnebres era visto como um ato de proteção. Contudo, a psicologia do luto atual, sugere uma abordagem diferente: os rituais são ferramentas antropológicas e psicológicas fundamentais para ajudar a concretizar a perda.
A participação no funeral ajuda a criança a cumprir a primeira tarefa do luto (aceitar a realidade da perda), transformando um conceito abstrato numa realidade visível. No entanto, esta participação nunca deve ser imposta. Devem seguir-se três passos essenciais:
Explicar o que vai acontecer: Antes de decidir, explique à criança, com palavras simples, o que é um funeral e o que ela vai ver. Por exemplo: "Vamos a um lugar onde as pessoas que gostavam do avô se vão despedir dele. O corpo dele vai estar numa caixa chamada caixão. Algumas pessoas vão estar a chorar porque estão tristes, e está tudo bem. Nós vamos lá estar para apoiar uns aos outros."
Dar o poder de escolha: Depois de explicar, pergunte à criança se ela deseja ir. Se ela disser que sim, deve ir. Se disser que não, a sua vontade deve ser respeitada, sem julgamentos ou chantagem emocional (evite frases como "Se não fores, o avô fica triste").
Garantir um Adulto de Suporte: Se a criança decidir ir, é fundamental que haja um adulto de referência focado exclusivamente nela (alguém que não esteja sobrecarregado pela dor mais direta da perda). O papel deste adulto será acompanhar a criança, responder às suas perguntas e, se a criança se sentir desconfortável ou quiser vir embora a meio da cerimónia, sair com ela sem qualquer problema.
Os Sinais de Alerta: Como o Luto se Manifesta no Comportamento
Ao contrário dos adultos, que tendem a verbalizar o que sentem, as crianças expressam o sofrimento através do corpo e do comportamento. Os estudos epidemiológicos pioneiros de Phyllis Silverman, alertam pais e professores para os sinais de que a criança precisa de um olhar mais atento.
Regressões no Desenvolvimento: Voltar a fazer chichi na cama, dificuldades na fala, birras infantis ou uma necessidade acrescida de colo e dependência dos cuidadores.
Manifestações Somáticas: Dores de barriga, dores de cabeça frequentes, alterações acentuadas no sono ou no apetite.
Mudanças na Escola: Queda abrupta no rendimento escolar, dificuldades de concentração, isolamento dos pares ou, no sentido oposto, uma agitação motora extrema.
Irritabilidade em vez de Tristeza: Muitas vezes, o luto na criança e no adolescente mascara-se de raiva, oposição e agressividade. O comportamento disruptivo pode ser, na verdade, um grito de dor.
Guia Prático: Como Pais e Professores Podem Agir?
O psicólogo William Worden defende que o luto exige o cumprimento de "tarefas" ativas, sendo a primeira delas aceitar a realidade da perda. Adultos seguros ajudam as crianças a cumprir estas tarefas através de estratégias concretas:
Evite Eufemismos
Frases como "O tio foi fazer uma longa viagem", "A avó está a dormir no céu" ou "Deus levou-o" criam mal-entendidos ansiosos. A criança pode desenvolver medo de viajar, pânico de ir dormir ou revolta. Use as palavras reais: "morreu" e "morte" - explicadas de forma biológica e adaptada à idade (ex: "O corpo do avô parou de funcionar e já não sente dor").
Valide Todas as Emoções
Permita que a criança sinta raiva, medo, culpa ou até alívio (comum quando a morte surge após uma doença longa e desgastante). Mostre-lhe que os adultos também choram e que expressar a tristeza é saudável. Dizermos "Não chores, tens de ser forte" bloqueia a cura emocional.
Mantenha a Rotina
As rotinas são o maior "contentor" de ansiedade para uma criança. Manter os horários das refeições, a ida para a escola e as regras de comportamento habituais transmite a mensagem subliminar de que, apesar de o mundo ter mudado drasticamente, a sua base continua segura e previsível.
Escola e Família em Sintonia
É fundamental que os professores saibam o que aconteceu em casa e que a família saiba como a criança se está a comportar na escola. O espaço escolar pode ser um excelente refúgio de normalidade, desde que os professores funcionem como observadores atentos e empáticos, sem exigências desmedidas nos primeiros tempos.
Conclusão: Os Laços que Permanecem
Superar o luto não significa esquecer quem partiu. O conceito de Laços Contínuos, proposto por Silverman, lembra-nos que o objetivo do luto é transformar a ligação física numa ligação interna e de memória.
Ao falarmos abertamente sobre a morte com as nossas crianças, estamos a dar-lhes a ferramenta mais valiosa de todas: a literacia emocional. Estamos a ensinar-lhes que a dor faz parte da vida, mas que a comunidade, o amor e a partilha são o remédio para a curar.
Marta Neto |Psicóloga, Cédula Profissional, Nº29547|
Referências Bibliográficas:
Worden, J. W. (2018). Grief Counseling and Grief Therapy. Springer Publishing Company.
Stroebe, M., & Schut, H. (1999). The dual process model of coping with bereavement: Rationale and description. Death Studies, 23(3), 197-224.
Silverman, P. R., & Nickman, S. L. (1996). Continuing Bonds: New Understandings of Grief. Taylor & Francis.


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