O meu aluno pode ter Dislexia? Checklist de sinais que não devem ser ignorados
- Marta Neto

- há 5 horas
- 5 min de leitura
A Dislexia é uma alteração neurológica que se manifesta na aprendizagem da leitura e da escrita, onde a criança demonstra dificuldades em reconhecer letras, o que muitas vezes impossibilita a leitura de palavras.
Sinais de alerta durante a infância:
☐ Atraso no desenvolvimento da linguagem. Começa a dizer as palavras e a construir frases mais tardiamente.
☐ Apresenta alguns problemas na linguagem durante o desenvolvimento, nomeadamente dificuldades em pronunciar determinados sons/fonemas (eg., r/l/f), linguagem “abebezada” para além do tempo normal;
☐ Na linguagem oral revela dificuldades em construir frases lógicas ou com sentido. As suas frases são curtas e com palavras mal pronunciadas;
☐ Durante a pré-escola, demonstra dificuldades em memorizar e acompanhar as canções infantis, as lenga-lengas e demonstra bastantes dificuldades nas atividades de rimas e de segmentação silábica de palavras;
☐ Dificuldade em memorizar e recordar algumas letras, nomeadamente, algumas do seu nome;
☐ Pessoas da família nuclear ou alargada com Dislexia ou com dificuldades de aprendizagem (hereditariedade da dislexia);
Sinais de alerta em idade escolar:
☐ Lentidão na aprendizagem da leitura e da escrita. Desfasamento face à turma na aquisição das letras, sílabas e ditongos, bem como no reconhecimento das palavras;
☐ Dificuldades de leitura e escrita: lentidão na aprendizagem e na memorização das letras, e na automação dos processos da leitura e da escrita;
☐ Dificuldade em compreender que as palavras se podem segmentar em sílabas e em fonemas (segmentação silábica e fonémica);
☐ A velocidade da leitura é significativamente abaixo do esperado para a idade, muitas vezes silábica e por soletração;
☐ Bastantes dificuldades na leitura, com a presença constante de erros (substituição, omissão, inserção e inversão de letras);
☐ Dificuldade na compreensão de textos devido à sua reduzida fluência leitora. Normal compreensão quando as histórias lhe são lidas;
☐ A leitura e a escrita surgem com muitos erros, nomeadamente erros fonológicos (eg., p-t, f-v, ch-j, nh-lh, ai-ia, …) e/ou erros lexicais (eg., o-u, e-i, s-ss-c-ç-x, x-ch, z-s-x, c-qu, …);
☐ Na escrita surgem fragilidades na organização/estruturação das ideias do texto, na construção frásica e no planeamento e revisão do texto;
☐ Demora demasiado tempo na realização dos trabalhos de casa;
☐ Utiliza truques e estratégias para não ler. Não revela qualquer prazer pela leitura.
☐ Distrai-se com bastante dificuldade. Curtos períodos de atenção quando está a ler ou a escrever, cansando-se muito rapidamente;
☐ Os resultados escolares não são condizentes com a sua capacidade intelectual. Melhores resultados nas avaliações orais do que nas escritas;
☐ Dificuldades em memorizar e processar informações verbais;
☐ Muitas dificuldades na aprendizagem de uma língua estrangeira;
☐ Não gosta de ir à escola ou de realizar atividades com ela relacionada;
Apesar da importância de uma intervenção precoce, o diagnóstico de Dislexia só pode ser efetuado após o início da aprendizagem formal da leitura e da escrita.
É normal que uma criança com dislexia desenvolva algumas reações secundárias relacionadas com os problemas de rendimento escolar.
As reações mais comuns são:
· Reduzida motivação e empenho pelas atividades que implicam a leitura e a escrita, o que por sua vez aumenta as suas dificuldades de aprendizagem;
· Sentir ansiedade perante atividades que impliquem a leitura e a escrita;
· Sentimentos de tristeza e culpa, podendo apresentar uma atitude depressiva perante as suas dificuldades;
· Baixa autoestima e autoconceito académico;
· Sentimentos de insegurança ou vergonha, como consequência dos seus sucessivos fracassos;
· Sentimentos de incapacidade, inferioridade e frustração por não conseguir superar as dificuldades, ou por ser constantemente comparado com os demais;
· Problemas comportamentais, como por exemplo comportamentos de oposição e desobediência perante pais, professores e educadores;
A intervenção pedagógica é essencial para garantir o sucesso escolar dos alunos com dislexia. Estudos mostram que estratégias individualizadas, apoio familiar e metodologias multissensoriais contribuem significativamente para a melhoria da leitura e da compreensão textual.
Algumas estratégias para adotar no trabalho com crianças com dislexia:
Estratégias multissensoriais:
☐ Ensinar com recurso a vários sentidos simultaneamente (ver, ouvir, tocar, movimentar). Por exemplo, escrever letras na areia ou moldar letras com plasticina, lã ou arame;
☐ Descobrir a letra com os olhos vendados, com recurso a letras móveis de contornos bem definidos, permite à criança sentir as diferenças de forma entre as várias letras e ir criando uma imagem mental das mesmas, associando-lhes o seu nome;
☐ Descobrir sons de letras nas palavras permite à criança treinar a identificação de sons. A criança é desafiada a identificar todas as vezes que um determinado som aparece – recorrendo a um apito, ou simplesmente batendo com a mão na mesa – enquanto escuta um texto que lhe é lido em voz alta;
☐ Mímica para representar sons: permite à criança aprender a representar sons através de gestos. É acordada entre a criança e o pai/professor a associação entre uma determinada palavra e um som (por exemplo, ao som “sssssss” pode associar-se a palavra “serpente”, que pode ser representada através de um ondular de braço). Posteriormente, a criança é desafiada a ler um pequeno texto, ao longo do qual deverá representar esse gesto sempre que identificar o referido som;
Ensino estruturado e organizado:
☐ Quando a criança errar ao escrever um determinado texto, o professor deve sublinhar apenas o erro e não a palavra toda;
☐ Incentivar a criança a escrever palavras em folhas quadriculadas, com uma letra por quadrícula;
☐ Incentivar a soletrar palavras complexas antes de as escrever;
☐ Treinar a velocidade de leitura da criança, dando-lhe a ler o mesmo texto ao longo de uma semana e cronometrar o tempo que demora cada leitura. Pode ser elaborado um gráfico que ilustre à criança a sua evolução em termos de velocidade de leitura;
☐ Construir um portfólio com os casos especiais de escrita e disponibilizá-lo à criança sempre que esta precisar de um suporte visual;
☐ Alternar a escrita convencional com escrita em computador, de modo a focalizar a sua atenção na aprendizagem da correspondência letra-som;
Estratégias lúdicas:
☐ “Tiro ao alvo” às letras. O alfabeto é colocado à frente da criança, e esta é desafiada a apontar para a letra certa sempre que escuta o nome da letra ou quando escuta o seu som;
☐ Jogos de caça ao erro permitem à criança treinar a identificação de erros. O texto tem um determinado número de erros relacionados com os sons que se pretende desenvolver com a criança, esta é desafiada a identificá-los e a corrigi-los.
☐ Ditado do número de letras permite desenvolver a visualização mental das palavras. À criança é ditada uma determinada sequência de palavras, em cada uma das quais ela é desafiada a contar o número de letras que contém e anotar esse número;
☐ Adivinhar a letra. O adulto pensa numa determinada letra e a criança tem de ir lançando hipóteses sobre as caraterísticas da mesma ("tem uma forma arredondada?", "está no início do alfabeto?", "é uma consoante?", "tem dois sons?" etc.). Ganha quem tiver feito menos perguntas para conseguir adivinhar a letra. Como estratégia para evitar que a criança faça adivinhas de forma impulsiva e pouco refletida, só pode responder-se “sim” ou “não”.
A intervenção na dislexia deve precoce, multidisciplinar e contínua, envolvendo terapia da fala e psicopedagogia, adaptações pedagógicas na escola e apoio familiar. A cooperação estreita entre os pais, professores e terapeutas especializados é fundamental para o sucesso da intervenção, permitindo que o aluno supere as dificuldades de aprendizagem na leitura e escrita.
Marta Neto |Psicóloga, Cédula Profissional 29547|


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