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Preguiça ou bloqueio emocional? Quando o “não quero” pode significar “não consigo"

Foto do escritor: Viviana Marinho
Viviana Marinho
há 15 horas
3 min de leitura

“Ele não quer saber.” 

“Se se esforçasse mais, conseguia.” 

“Tem capacidade, mas é muito preguiçoso.” 

Estas são frases que surgem frequentemente quando uma criança ou adolescente evita tarefas, adia constantemente aquilo que tem para fazer ou parece desistir antes mesmo de começar. 


Mas será que é sempre falta de vontade? 

Por detrás de um “não quero” pode, algumas vezes, existir um “não consigo” que a criança ainda não sabe explicar. 


O que entendemos por “preguiça”? 

Aquilo a que habitualmente chamamos preguiça pode corresponder a uma escolha pontual de evitar uma tarefa que exige esforço, apesar de existirem condições e recursos para a realizar. 


Todos fazemos isso em determinados momentos. Preferimos uma atividade mais agradável, adiamos algo aborrecido ou simplesmente não nos apetece começar. 


O problema surge quando utilizamos a palavra “preguiçoso” para explicar praticamente todos os comportamentos de evitamento. 


Uma criança que não começa uma tarefa pode não estar simplesmente a escolher não fazê-la. Pode estar sem saber como começar. 


E o que é um bloqueio emocional? 

O bloqueio emocional pode surgir quando uma tarefa ou situação desencadeia emoções tão intensas que dificultam a ação. 


Ansiedade, medo de errar, vergonha, frustração ou sensação de incapacidade podem fazer com que uma tarefa aparentemente simples se torne muito difícil. 


A criança sabe que tem de fazer. Pode até querer fazer. Mas sente-se “presa”. 


É frequente encontrarmos pensamentos como: 

“E se eu errar?” “Não vou conseguir.” “Os outros fazem melhor do que eu.” “Nem vale a pena tentar.” 

Nestes casos, evitar a tarefa pode funcionar como uma forma de escapar temporariamente ao desconforto. 


Como podemos perceber a diferença? 

Não existe uma regra única, mas há algumas perguntas que nos podem ajudar a compreender melhor o comportamento. 


A criança evita apenas tarefas que considera aborrecidas ou também aquelas em que sente que pode falhar? 


O que acontece emocionalmente quando lhe pedimos para começar? Fica ansiosa, irritada, chora, paralisa ou desvaloriza imediatamente a tarefa? 


Depois de evitar, parece simplesmente satisfeita por não ter de fazer ou demonstra culpa, preocupação e frustração consigo própria? 


Quando recebe ajuda para dar o primeiro passo, consegue continuar? 

Esta última questão pode dar-nos informação importante. Por vezes, aquilo que parecia falta de vontade era, na realidade, dificuldade em ultrapassar o momento inicial da tarefa. 


O comportamento pode estar a esconder uma emoção? 

Muitas vezes, sim. 


Uma criança pode dizer “isto é uma seca” quando, na verdade, pensa “tenho medo de não conseguir”. 

Pode dizer “não me interessa” quando sente “não sou tão bom como os outros”. 

Pode responder “não faço” quando aquilo que está a sentir é “não sei por onde começar”. 


É por isso que olhar apenas para o comportamento pode levar-nos a interpretações erradas. O comportamento é aquilo que conseguimos observar; a razão que está por detrás dele nem sempre é imediatamente visível. 


O medo de falhar pode levar a não tentar? 

Sim, e esta aparente contradição é muito importante. 

Para algumas crianças e adolescentes, não tentar pode ser emocionalmente mais seguro do que tentar e falhar. 

Se não estudou, pode pensar: “Tive uma nota baixa porque não estudei.” 


Mas se estudou muito e, mesmo assim, o resultado não foi o esperado, pode surgir uma conclusão muito mais dolorosa: “Talvez eu não seja capaz.” 


Assim, procrastinar, desistir ou evitar pode transformar-se numa forma de proteção perante o medo de falhar. 


Como devemos agir? 

Antes de aumentar a pressão, é importante tentar perceber o que está a dificultar a ação. 


Em vez de: 

“Deixa de ser preguiçoso e começa.” 


Podemos experimentar: 

“O que está a tornar isto difícil?” “Qual é a parte que te preocupa mais?” “Vamos descobrir qual pode ser o primeiro passo?” 


Também podemos dividir uma tarefa em partes mais pequenas, ajudar a organizar os primeiros passos, permitir pausas e valorizar a tentativa e o progresso — não apenas o resultado. 


O objetivo não é retirar todas as dificuldades à criança. É ajudá-la a desenvolver estratégias para conseguir enfrentá-las. 


E se for mesmo falta de vontade? 

Também acontece. 

Nem todos os “não quero” escondem uma dificuldade emocional. Crianças e adolescentes também testam limites, preferem atividades mais agradáveis e precisam de aprender responsabilidade, persistência e tolerância ao esforço. 


Compreender o que está por detrás de um comportamento não significa eliminar regras ou expectativas. 

Significa ajustar a nossa resposta à verdadeira necessidade. 


Se é falta de vontade, podemos trabalhar responsabilidade e consequências. Se existe medo, ansiedade ou sensação de incapacidade, aumentar apenas a exigência pode intensificar o bloqueio. 


Antes de chamar “preguiça”, vale a pena perguntar 

Quando o evitamento é frequente, provoca sofrimento ou interfere significativamente na aprendizagem, na autonomia ou no bem-estar, é importante procurar compreender melhor o que está a acontecer e, se necessário, recorrer a apoio especializado. 


Porque nem sempre uma criança que não faz não quer fazer. 

Às vezes, ainda não sabe como começar. Outras vezes, tem medo de não conseguir. 

E descobrir essa diferença pode mudar completamente a forma como a ajudamos.

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