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  • Foto do escritorAlexandra Gomes

Tentei terminar com o meu sofrimento: testemunho real de uma adolescente


Ontem cheguei a casa, eram cerca das 16h40. Não fui ao centro de estudos pois sentia-me muito cansada, exausta, sem forças. Por isso, pedi ao meu avô para me levar a casa.

 

O meu avô como me viu tão triste e queria que me sentisse melhor, assim o fez.

 

Chegada a casa, fui até à cozinha e a primeira coisa que me passou pela cabeça foi: “é hoje que eu finalmente vou-me matar”. Bem, no carro já estava a pensar sobre isso, embora não tivesse nada planeado (ao contrário das últimas vezes que o pensei fazer). Mas, mesmo assim, nunca havia ido tão longe!

 

Determinada no que ia fazer, fui buscar a caixa dos medicamentos que o médico me receitou para dormir e pensei: “se eles me fazem dormir então, tomando mais eu morro de forma rápida e menos dolorosa”. Então, tirei da caixa 5 comprimidos (na hora, realmente pensei que 5 iam ser suficientes para me matar, ou pelo menos chegar lá perto e aí ser impossível fazer alguma coisa.

 

Enchi um copo com água da torneira, dei um último beijo à Lady – a minha cadela – e fechei-me no quarto. Sentei-me na cama e tomei 2 comprimidos… ia tomá-los aos poucos.

 

Assim que tomei os dois comprimidos senti-me aterrorizada: o meu coração batia tão forte, a minha barriga apertava tanto e parecia que não conseguia respirar!

 

Naquele terror que sentia, não percebia o que se estava a passar! Eu já havia superado o medo da morte (pelo menos pensava que sim…)!! Senti-me tão culpada, fiquei com a consciência pesada e pensei muito na minha mãe e na minha amiga Marta…. Foi horrível!! Deitei-me na cama e comecei a chorar muito, senti-me louca, repetia para mim própria: “O que estou a fazer? O que estou a fazer??”

 

Eu só queria a minha mãe! Peguei no meu telemóvel e escrevi-lhe: “Mamã, podes vir para casa? Por favor!! Eu depois conto-te, por favor!!” – A minha mãe respondeu-me dizendo que não podia porque estava a terminar uma tarefa importante no trabalho, mas mal o escreveu perguntou-me o que se passava. A minha mãe estava mesmo preocupada e prometeu não ficar chateada, o que me fez acalmar um pouco…

 

Eu não estava preocupada comigo, mas sim como a minha mãe ia reagir. Contei-lhe o que aconteceu e pedi-lhe que mantivesse a calma. Perguntou-me quantos comprimidos eu tinha tomado e outras perguntas com a mesma intenção: saber como me estava a sentir!

 

Logo a seguir, ligou-me e pediu-me para eu beber muito leite. Fiz o que ela me pediu e ali estava eu a chorar compulsivamente, com o pacote de leite na mão. A voz e a respiração dela estavam tão sofridas e expressavam o quão aflita estava! Mas, mesmo assim, a minha mãe acalmou-se e no meio do pânico conseguiu ser o mais tranquila possível e dizer-me que estava a caminho, para eu não me preocupar. Nessa altura veio sempre comigo ao telefone, para eu continuar a falar com ela.

 

Intensos minutos depois, a minha mãe abriu a porta com força, entrou em casa a correr e a chorar tanto… A primeira coisa que fez foi abraçar-me tão forte e pedir-me que me acalmasse, que eu estava bem e ia ficar ainda melhor! Respirou fundo, tentou acalmar-se e pediu-me para eu vomitar senão teria de me levar para o hospital! Ainda mais assustada implorei-lhe que não o fizesse! Prometi-lhe que me acalmava e aí começámos as duas a chorar! Estivemos assim, abraçadas uma à outra, durante bastante tempo.

 

Um pouco depois, a minha mãe fez-me um chá para me sentir mais calma, vestimos o pijama e acabámos por adormecer.

 

Passados uns dias, recordando o que aconteceu, sinto-me culpada, mas ao mesmo tempo triste por não ter tomado mais comprimidos para morrer. Sinto-me tão confusa, tão confusa…

 

Agora a minha mãe não confia em mim… Não queria que ela soubesse, mas nem pensei nisso quando lhe enviei as mensagens. Só queria que ela me ajudasse!

 

Não sei como vai ser, não sei se irei esquecer, mas o que mais quero é que a minha mãe se esqueça dessa tarde tão escura!

 

MT

 


Este testemunho representa a dor de muitos(as) adolescentes dos dias de hoje. É uma dor que insiste em permanecer e que turva a esperança de um dia tudo ficar bem!


A nós, adultos, compete-nos estar atentos a cada sorriso escondido e a cada silêncio insistido. Temos o dever de cuidar e não relativizar, temos o dever de acreditar no melhor de cada adolescente e no quanto nos podem inspirar a fazer melhor uns pelos outros!

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