As emoções não são incêndios para apagar

Quando uma criança chora intensamente, grita porque perdeu um jogo, se atira para o chão porque não pode levar aquele brinquedo ou se fecha no quarto depois de um conflito, é natural que o adulto queira fazer alguma coisa para que aquilo termine. Queremos acalmar, explicar, distrair, resolver. Por vezes, queremos simplesmente recuperar o silêncio da casa.
E é aí que começa um dos maiores desafios de acompanhar emocionalmente uma criança: perceber que nem todas as emoções precisam de ser apagadas.
Podemos pensar numa emoção intensa como um incêndio. Quando vemos fogo, a primeira reação é procurar um extintor. Mas nem tudo aquilo que arde precisa de ser eliminado imediatamente. Algumas emoções precisam, antes de mais, de ser reconhecidas, compreendidas e atravessadas com segurança. O papel do adulto não é deixar o fogo alastrar, mas também não é tentar impedir que a criança sinta.
Sentir não é perder o controlo
Durante muito tempo, talvez tenhamos associado uma boa regulação emocional à capacidade de permanecer calmo. Uma criança que não grita, não chora e consegue “controlar-se” parece, à primeira vista, mais regulada. Mas regulação emocional não significa ausência de emoções intensas. Significa desenvolver, progressivamente, a capacidade de reconhecer, compreender e modular aquilo que sentimos de uma forma adequada ao contexto.
A investigação sobre desenvolvimento emocional mostra precisamente que a regulação se constrói ao longo do tempo e depende tanto das capacidades da própria criança como das experiências relacionais que encontra. Nos primeiros anos, os adultos desempenham um papel fundamental nesse processo, ajudando a criança a organizar estados emocionais que ainda não consegue gerir sozinha. É aquilo a que habitualmente chamamos co-regulação: antes de conseguirmos regular-nos de forma autónoma, precisamos muitas vezes de alguém que nos ajude a fazê-lo.
Por isso, quando uma criança está profundamente zangada, dizer “calma” pode ter pouco efeito. O mesmo acontece quando tentamos explicar racionalmente uma situação no auge da emoção. A capacidade de refletir e encontrar soluções fica temporariamente condicionada pelo estado de ativação em que a criança se encontra. Primeiro pode ser necessário ajudar a baixar a intensidade emocional; só depois haverá espaço para conversar sobre o que aconteceu.
O adulto não precisa de apagar o fogo
Imagine uma criança que perdeu um jogo e começa a chorar, dizendo que é injusto e que nunca mais quer brincar. O adulto pode sentir-se tentado a responder: “Não é nada de grave”, “Não precisas de chorar por isso” ou “Foi só um jogo”.
Mas, para aquela criança, naquele momento, foi mais do que um jogo.
Reconhecer a emoção não significa concordar com tudo aquilo que a criança diz ou faz. Podemos validar a experiência sem validar comportamentos inadequados: “Percebo que estás muito frustrado por teres perdido. É difícil quando queremos muito ganhar. Podes estar zangado, mas não podes bater nem atirar o jogo.”
O adulto mantém o comando, mas permanece junto da criança enquanto a emoção atravessa o seu curso. Não precisa de resolver imediatamente a tristeza, retirar a frustração ou encontrar uma explicação que faça desaparecer a zanga. Precisa, muitas vezes, de transmitir algo mais simples: “Eu consigo ficar contigo enquanto sentes isto.”
Quando tentamos apagar todas as emoções
A intenção de proteger pode levar-nos, sem perceber, a tentar eliminar experiências emocionais que fazem parte do desenvolvimento. Se uma criança tem medo, dizemos que não há razão para ter medo. Se está triste, tentamos distraí-la. Se está frustrada, procuramos rapidamente uma solução. Se está zangada, pedimos que se acalme.
Nenhuma destas respostas é necessariamente errada. O problema aparece quando se torna difícil permitir que a criança experimente emoções desagradáveis.
A investigação sobre parentalidade e regulação emocional sugere que a forma como os adultos respondem às emoções das crianças está relacionada com o desenvolvimento das suas próprias competências de regulação. Respostas de apoio, que reconhecem e orientam a emoção, tendem a ser mais adaptativas do que respostas que punem, minimizam ou rejeitam sistematicamente as experiências emocionais da criança (Morris et al., 2007; Zimmer-Gembeck et al., 2022).
Isto não significa que devamos aceitar qualquer comportamento em nome da emoção. Pelo contrário. A criança precisa de aprender simultaneamente duas coisas: “O que sinto faz sentido” e “nem tudo o que sinto me dá permissão para fazer.”
A criança aprende primeiro com o nosso sistema nervoso
Existe ainda outra dimensão importante. Quando uma criança está emocionalmente desorganizada, procura muitas vezes no adulto sinais de segurança. O tom de voz, a expressão facial, a proximidade e a previsibilidade da resposta podem ajudar a criança a recuperar gradualmente o equilíbrio.
Isto não significa que os pais e educadores tenham de estar sempre calmos. Seria uma expectativa impossível e injusta. Os adultos também se irritam, cansam e perdem a paciência. O que importa é que possam reparar, voltar à relação e mostrar que uma emoção intensa não destrói necessariamente uma relação.
Aliás, esta ideia pode ser particularmente importante para os próprios adultos: não precisamos de regular perfeitamente todas as emoções da criança; precisamos de estar suficientemente disponíveis para a ajudar a aprender a regulá-las.
Com o tempo, aquilo que inicialmente acontece na relação com o adulto vai sendo progressivamente interiorizado. A criança começa a reconhecer sinais emocionais, a nomear aquilo que sente, a antecipar situações difíceis e a encontrar estratégias próprias para lidar com elas.
O objetivo não é que deixe de sentir.
É que, pouco a pouco, aprenda que consegue sentir sem ser dominada pelo que sente.
Nem todos os fogos precisam do mesmo extintor
Também aqui não existem respostas universais. Uma criança pequena pode precisar de proximidade física e de poucas palavras; outra pode preferir espaço; uma criança mais velha pode conseguir falar sobre o que sente depois de algum tempo; outra pode precisar primeiro de silêncio. O temperamento, a idade, a experiência e o contexto influenciam a forma como cada criança reage e aquilo de que necessita.
Por isso, acompanhar emocionalmente uma criança não consiste em aplicar uma técnica sempre que surge uma emoção difícil. Consiste em observar, compreender e ajustar a nossa resposta.
Às vezes, será preciso colocar um limite. Outras vezes, simplesmente permanecer por perto. Noutras situações, ajudar a nomear o que está a acontecer ou esperar até existir disponibilidade para conversar.
Porque a vida não será emocionalmente confortável o tempo todo. As crianças vão perder, esperar, ser rejeitadas, sentir medo, ficar zangadas, desiludir-se e enfrentar situações que não podem controlar. Não conseguiremos impedir todos esses incêndios, nem seria desejável fazê-lo.
Podemos, contudo, ajudá-las a conhecer o próprio fogo, a reconhecer os seus sinais e a descobrir que uma emoção, por mais intensa que seja, tem um princípio, um percurso e um fim.
As emoções não são incêndios para apagar.
São experiências para aprender a atravessar.
Marta Neto |Psicóloga Cédula Profissional OPP-29547|
Referências Bibliográficas:
Morris, A. S., Silk, J. S., Steinberg, L., Myers, S. S., & Robinson, L. R. (2007). The role of the family context in the development of emotion regulation. Social Development, 16(2), 361–388. https://doi.org/10.1111/j.1467-9507.2007.00389.x
Zimmer-Gembeck, M. J., Rudolph, J., Kerin, J., & Burge, B. (2022). Child emotion regulation: A review of the role of parental emotion socialization and related factors. International Journal of Behavioral Development, 46(4), 314–327. https://doi.org/10.1177/01650254221084184


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