Atenção Sustentada vs Atenção Seletiva nas Crianças: Como Funciona a Mente dos Nossos Filhos e Alunos?
- Viviana Marinho

- há 2 dias
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Atualmente, ouve-se com frequência frases como: "Esta criança não para quieta", "Distrai-se até com uma mosca" ou "Não consegue estar cinco minutos concentrada a fazer os TPC". Contudo, quando essa mesma criança se senta à frente de um videojogo ou a ver vídeos na internet, consegue ficar uma hora inteira sem tirar os olhos do ecrã.
Como é que isto é possível? Estaremos perante um problema de atenção ou trata-se de algo mais complexo?
Para percebermos como as crianças aprendem e gerem os estímulos do dia a dia, precisamos de olhar para o cérebro infantil e compreender a diferença entre duas competências fundamentais: a Atenção Seletiva e a Atenção Sustentada.
1. Atenção Seletiva: O "Escudo Proteção" Contra as Distrações
Imagine uma sala de aula de 3.º ou 4.º ano. O professor está a explicar uma matéria nova. Ao mesmo tempo, há um colega a afiar o lápis, outro a mexer no estojo, o barulho dos carros a passar na rua e a luz do sol a entrar pela janela.
Para conseguir ouvir o professor, a criança precisa de acionar a sua atenção seletiva.
O que é? É a capacidade de escolher em quê focar a mente, ignorando tudo o que está à volta. Funciona como um filtro ou uma lanterna: ilumina apenas o que é importante (a voz do professor) e deixa o resto no escuro (o barulho da sala).
Como se manifesta a dificuldade? A criança que tem fragilidades na atenção seletiva é aquela que "ouve tudo e não ouve nada". Qualquer pequeno som, movimento ou cor a faz olhar para trás e perder o fio à meada do que estava a fazer.
2. Atenção Sustentada: O "Motor" da Concentração
Imaginemos agora que a criança já conseguiu ignorar o barulho da sala e começou a fazer uma ficha de exercícios. O desafio passa agora a ser outro: manter esse esforço mental até ao fim da tarefa.
É aqui que entra a atenção sustentada.
O que é? É a capacidade de manter o foco ligado numa mesma atividade durante um longo período, resistindo ao cansaço, à monotonia e à vontade de desistir.
Como se manifesta a dificuldade? A criança com baixa atenção sustentada até começa os TPC com facilidade, mas ao fim de 5 ou 10 minutos começa a contorcer-se na cadeira, a pedir para ir à casa de banho, a suspirar ou a dizer o famoso "não consigo!". O seu "depósito" de energia atencional esvazia rapidamente.
O Quadro Comparativo no Mundo Infantil
Pergunta da Criança | Atenção Seletiva | Atenção Sustentada |
O grande desafio | "Onde é que devo pôr os meus olhos/ouvidos?" | "Durante quanto tempo tenho de ficar a fazer isto?" |
O principal inimigo | O ruído, os ecrãs a piscar e a desarrumação da mesa. | O tédio, a exigência de esforço mental e a fadiga. |
Exemplo no dia a dia | Conseguir ler um livro com a televisão ligada na sala. | Conseguir resolver uma ficha inteira de Matemática sem parar a meio. |
O Mito do Videojogo: Por que razão se focam tanto no ecrã?
Uma das maiores dúvidas dos pais é: "Se o meu filho consegue estar duas horas atento a jogar PlayStation, como é que dizem que ele tem falta de atenção?"
A resposta é simples: os ecrãs não exigem esforço da atenção sustentada nem da seletiva.
Jogos digitais e vídeos curtos usam luzes, sons e mudanças de câmara a cada segundo. Trata-se de uma atenção passiva (capturada por estímulos externos constantes). Já ler um livro ou resolver um problema escolar exige atenção ativa — o cérebro da criança tem de fazer o trabalho sozinho, sem luzes nem efeitos especiais.
Como Podemos Ajudar as Crianças a Treinar Ambas as Atenções?
Sendo o cérebro infantil altamente moldável, ambas as formas de atenção podem ser exercitadas através de rotinas e brincadeiras simples:
Para Fortalecer a Atenção Seletiva:
Mesa de Trabalho Minimalista: Na hora de estudar, a mesa deve ter apenas o livro e o caderno daquela disciplina. Telemóveis, brinquedos e outros livros devem ficar fora do campo de visão.
Jogos de "Onde está o Wally?" ou Procura de Padrões: Ajudam os olhos a procurar detalhes específicos no meio de muita informação visual.
Jogo do Silêncio/Escuta Ativa: Pedir à criança que feche os olhos durante 30 segundos e conte quantos sons diferentes consegue identificar na casa.
Para Treinar a Atenção Sustentada:
A Regra dos Blocos (Cronómetro Visual): Ajustar o tempo de foco à idade da criança (ex.: 15 a 20 minutos de trabalho para uma criança de 9 anos), intercalado com pausas curtas e ativas de 3 minutos.
Jogos de Tabuleiro e Puzzles: Jogos como Xadrez, Loto, Quem é Quem? ou quebra-cabeças exigem paciência, raciocínio e permanência na tarefa.
Leitura Partilhada: Ler uma página o adulto e outra a criança obriga a acompanhar a história continuadamente ao longo do tempo.
Entender a diferença entre atenção seletiva e sustentada permite-nos deixar de rotular as crianças como "preguiçosas" ou "desconcentradas". Quando percebemos qual destas engrenagens precisa de ajuda, conseguimos dar-lhes as ferramentas certas para que aprendam a gerir o seu próprio cérebro — uma competência valiosa para o sucesso escolar e para toda a vida.
Viviana Marinho,
Psicopedagoga


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