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Brincar livremente é trabalho sério!

  • Foto do escritor: Marta Neto
    Marta Neto
  • há 21 horas
  • 4 min de leitura

Vivemos numa época em que as férias das crianças são, muitas vezes, planeadas ao minuto: campos de férias, atividades desportivas, explicações, tecnologia disponível 24 horas por dia e a preocupação constante dos adultos em mantê-las ocupadas.


Mas será que estamos a deixar espaço para algo igualmente importante? O tempo de não fazer nada.

Se esta ideia lhe causa algum desconforto, saiba que não está sozinho. Enquanto pais e educadores, fomos ensinados a acreditar que uma criança ocupada é uma criança feliz e que o aborrecimento é algo que deve ser imediatamente resolvido. Contudo, a Psicologia do Desenvolvimento tem vindo a demonstrar precisamente o contrário: as crianças precisam de tempo livre, não estruturado e, sim, também precisam de se aborrecer.

 

O aborrecimento não é um inimigo do desenvolvimento

Quando uma criança diz "Estou aborrecido!", a nossa reação tende a ser imediata: sugerimos uma atividade, ligamos um desenho animado ou procuramos algo que a mantenha entretida.


Mas o aborrecimento não é um problema; é um convite.


É precisamente quando o cérebro deixa de receber estímulos constantes que começa a procurar alternativas. Surge a curiosidade, a imaginação e a capacidade de criar a partir do aparentemente banal. Uma caixa de cartão transforma-se num foguetão, um lençol numa cabana e uma colher de pau num microfone para um concerto improvisado na sala.


O aborrecimento obriga as crianças a mobilizar competências fundamentais para a vida adulta, tais como:

  • Criatividade;

  • Resolução de problemas;

  • Flexibilidade cognitiva;

  • Tolerância à frustração;

  • Capacidade de iniciativa;

  • Autonomia;

  • Autorregulação emocional.


Em suma, ensina-as a encontrar recursos dentro de si próprias, em vez de dependerem constantemente de estímulos externos para se sentirem envolvidas ou satisfeitas.

 

O cérebro infantil também precisa de pausa

Vivemos numa sociedade que valoriza a produtividade em todas as fases da vida. No entanto, o cérebro não aprende apenas quando está ocupado.


As pausas desempenham um papel essencial no desenvolvimento cognitivo. Diversos estudos na área das neurociências demonstram que os momentos de descanso e de menor estimulação são importantes para a consolidação das aprendizagens, para a organização da informação e para a criatividade.


Tal como os músculos necessitam de recuperação após o exercício físico, também o cérebro precisa de tempo para integrar aquilo que viveu, aprendeu e sentiu.


Durante o ano letivo, as crianças vivem rodeadas de horários, regras, objetivos e exigências. As férias representam uma oportunidade rara para recuperar algo que a infância contemporânea parece estar gradualmente a perder: o tempo livre.

 

Brincar livremente é uma necessidade, não um luxo

O brincar livre tem vindo a ser amplamente estudado por investigadores do desenvolvimento infantil. Peter Gray, psicólogo e investigador da infância, defende que o brincar autónomo é um dos principais motores do desenvolvimento emocional, social e cognitivo das crianças.


Quando brincam sem a intervenção constante dos adultos, as crianças aprendem a:

  • Negociar regras;

  • Gerir conflitos;

  • Tomar decisões;

  • Cooperar;

  • Desenvolver a empatia;

  • Persistir perante desafios;

  • Regular emoções e comportamentos.


Mais do que isso, o brincar livre permite-lhes descobrir os seus próprios interesses e desenvolver um sentido de competência e autonomia.


Curiosamente, aquilo que muitos adultos consideram "não estar a fazer nada" pode ser, do ponto de vista psicológico, um momento de enorme crescimento.

 

Não é preciso transformar todas as experiências em oportunidades de aprendizagem

Existe uma tendência crescente para procurarmos intencionalidade educativa em tudo aquilo que as crianças fazem. Queremos que as atividades sejam estimulantes, pedagógicas, enriquecedoras e, se possível, promotoras do desenvolvimento cognitivo e emocional.


Mas a infância não é um currículo que precisa de ser integralmente preenchido.


Uma criança não precisa de aprender algo novo a cada hora do dia. Também precisa de vaguear, imaginar, experimentar, falhar, descansar e simplesmente existir sem objetivos definidos pelos adultos.


As melhores memórias da infância raramente são construídas a partir das atividades mais sofisticadas. Muitas vezes, nascem das pequenas coisas: brincar na rua até ao pôr do sol, fazer bolos com os avós, apanhar conchas na praia ou construir uma cidade imaginária no chão da sala.


E se o meu filho estiver mesmo aborrecido?

A resposta pode ser mais simples do que imaginamos: está tudo bem.


Não precisamos de assumir a responsabilidade de entreter permanentemente os nossos filhos.


Em vez disso, podemos ajudá-los a desenvolver a capacidade de tolerar momentos de menor estimulação. Algumas respostas possíveis poderão ser:

  • "O que achas que poderias inventar para fazer?"

  • "Tenho curiosidade em descobrir aquilo que vais criar hoje."

 

Ao fazê-lo, estamos a transmitir uma mensagem importante: é seguro estar aborrecido. Não precisamos de fugir imediatamente desse estado emocional.

 

Menos atividades, mais infância

As férias de verão não têm de ser produtivas. Têm de ser férias.


As crianças não precisam de regressar à escola com um currículo de verão preenchido ao minuto. Precisam de regressar mais descansadas, emocionalmente disponíveis, curiosas e com tempo suficiente para terem sido simplesmente crianças.


Talvez um dos maiores presentes que lhes possamos oferecer seja precisamente aquele que mais escasseia nos dias de hoje: tempo.


Tempo para brincar sem objetivos. Tempo para imaginar. Tempo para descansar. Tempo para se aborrecer.


Porque crescer não acontece apenas quando estamos a ensinar alguma coisa às crianças. Muitas vezes, acontece quando lhes damos espaço para descobrirem aquilo que são capazes de fazer sozinhas.


Neste verão, permita-se retirar algumas atividades da agenda dos seus filhos. Pode parecer contraditório, mas estará, provavelmente, a oferecer-lhes uma das experiências mais importantes do seu desenvolvimento.


Às vezes, não fazer nada é, afinal, fazer muito.

 

Marta Neto

Psicóloga |CP-OPP 29547|

 

Referências Bibliográficas:

·         Gray, P. (2013). Free to Learn. Basic Books.

·         Hirsh-Pasek, K., Golinkoff, R. M., & Eyer, D. (2004). Einstein Never Used Flash Cards. Rodale.

·         Ginsburg, K. R. (2007). "The Importance of Play in Promoting Healthy Child Development and Maintaining Strong Parent-Child Bonds." Pediatrics, 119(1), 182-191.

·         Pellegrini, A. D. (2009). The Role of Play in Human Development. Oxford University Press.

·         Organização das Nações Unidas, Convenção sobre os Direitos da Criança (artigo 31.º), que reconhece o direito das crianças ao descanso, ao lazer e ao brincar.

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