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Explodir vs. Fechar-se: Os Dois Caminhos da Desregulação Emocional

  • Foto do escritor: Viviana Marinho
    Viviana Marinho
  • 29 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura
Encontros com a Educação

Desregulação Emocional


A Diversidade da Resposta ao Stress


Perante uma mesma situação de frustração, medo ou injustiça, é comum observarmos reações opostas: uma criança que grita, atira objetos e entra em "erupção", enquanto outra se remete ao silêncio absoluto, evita o olhar e parece "desligar-se" do mundo.


Estas reações não são escolhas conscientes de "má conduta" ou "timidez". São, na verdade, manifestações do sistema nervoso e do temperamento, representando duas estratégias distintas de sobrevivência emocional: a Externalização e a Internalização.


I. A Neurobiologia da Reação: Luta, Fuga ou Congelamento


A resposta de uma criança ao stress é mediada pelo sistema nervoso autónomo. Quando o cérebro deteta uma ameaça (real ou percebida), ele ativa mecanismos de defesa automáticos.


  • A Explosão (Luta/Fuga): Ocorre quando o sistema nervoso entra em hiperalerta. Há uma descarga de adrenalina e cortisol. A criança "explode" porque o seu cérebro está a tentar lutar contra uma ameaça ou fugir de uma situação intolerável.

  • O Fechar-se (Congelamento/Aparência de Morte): Quando o sistema nervoso avalia que não pode lutar nem fugir, entra num estado de hipoalerta ou colapso. A criança "fecha-se" como uma forma de proteção interna, minimizando a sua presença para evitar mais dor ou estimulação.


II. Fatores que Determinam a Reação


1. Temperamento e Biologia


Cada criança nasce com um "conjunto de instruções" biológicas. Algumas têm um sistema sensorial mais reativo aos estímulos externos (o que as leva mais facilmente à explosão), enquanto outras têm uma predisposição para a inibição comportamental, processando as emoções de forma mais introspetiva.


2. O Modelo de Apego e Aprendizagem Social


A forma como os cuidadores respondem às primeiras emoções da criança molda a sua expressão futura:


  • Se as emoções intensas foram historicamente punidas, a criança pode aprender que é mais seguro fechar-se.

  • Se a criança sentiu que apenas através de reações extremas era "ouvida", pode desenvolver a tendência para explodir.


3. Perfil Cognitivo e Competências Linguísticas


Crianças com dificuldades na expressão verbal ou no processamento de informação tendem a utilizar o corpo (explosão) como forma de comunicação primária, uma vez que não possuem as palavras para descrever o seu estado interno.


III. Comparação entre os Perfis


Característica

A Criança que "Explode" (Externalizadora)

A Criança que se "Fecha" (Internalizadora)

Manifestação

Agressividade, gritos, impulsividade, oposição.

Retraimento, mutismo seletivo, apatia, tristeza.

Risco Percebido

O ambiente é visto como algo a ser controlado ou combatido.

O ambiente é visto como algo esmagador do qual se deve esconder.

Desafio para o

Adulto

Manter a calma e a segurança física.

Perceber que o silêncio não é ausência de sofrimento.

Necessidade

Principal

Ajuda para baixar a energia (regulação do pico).

Ajuda para subir a energia e sentir segurança para falar.

IV. Como Apoiar Cada Perfil?


Para a criança que explode:


  • Segurança Primeiro: Garanta que ela não se magoa a si nem aos outros sem utilizar força excessiva.

  • Validação Pós-Crise: Espere que a "tempestade" passe antes de tentar ensinar ou conversar. No pico da explosão, o cérebro racional está "desligado".

  • Treino de Sinais de Alerta: Ensinar a criança a reconhecer o calor no corpo ou o batimento cardíaco antes da explosão.


Para a criança que se fecha:


  • Não Pressione: Forçar uma criança fechada a falar aumenta o seu estado de congelamento.

  • Presença Silenciosa: Sente-se ao lado dela, sem exigir respostas. "Estou aqui contigo quando estiveres pronto."

  • Meios Alternativos: Utilize o desenho, a escrita ou cartas para que ela possa expressar o que sente sem a pressão do contacto visual direto.


Dois Lados da Mesma Moeda


Embora a criança que explode cause mais "barulho" e preocupação imediata, a criança que se fecha está em igual nível de sofrimento. Ambas nos estão a dizer a mesma coisa: "Não consigo lidar com o que estou a sentir sozinho(a)." O nosso papel, enquanto adultos, é ser a "âncora" que permite que a primeira se acalme e a "ponte" que permite que a segunda saia do seu isolamento.

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