• Joana Bastos

A chupeta e a fala

Os hábitos orais de uso da chupeta, do biberão e a sucção digital (chuchar no dedo) são hábitos de sucção não nutritiva e estão interligados com a satisfação afetiva, conforto e segurança da criança, uma vez que lhe dão prazer pelos movimentos repetitivos de sucção.


No entanto, o uso da chupeta, do biberão e da sucção digital de forma prolongada é considerado prejudicial e compromete o crescimento craniofacial ósseo e muscular, o desenvolvimento da musculatura orofacial e, consequentemente, as suas funções. Altera a forma da arcada dentária, o posicionamento da língua, o encerramento labial e, consequentemente prejudica as funções da fala, mastigação, deglutição e respiração. É importante lembrar que os músculos e estruturas utilizadas quando a criança realiza sucção, são os mesmos que irá utilizar para falar, mastigar, deglutir e respirar. O grau da alteração provocada pelos hábitos orais está diretamente relacionada com a intensidade, frequência e duração da sua utilização.


Hoje em dia, dada a grande variedade de chupetas no mercado, torna-se difícil para os pais escolher a chupeta mais adequada. A tetina é a parte da chupeta que permite à criança realizar o movimento de sucção. Independentemente da marca, a chupeta deverá ter uma tetina ortodôntica e deverá ter um tamanho ajustado à cavidade oral da criança. Por norma, a idade cronológica deverá ser respeitada. A chupeta não deverá ser de idade inferior à da criança por ter uma dimensão menor, deverá acompanhar o crescimento da cavidade oral para não propiciar malformações através das forças de sucção efetuadas.

Quanto ao material, existem tetinas de látex (borracha) e de silicone. As tetinas de látex são mais rugosas, mas mais flexíveis e resistem mais à mordedura. As tetinas de silicone são mais lisas, mais rígidas, mas podem causar maior deformação do palato (zona superior da cavidade oral) e são menos resistentes às mordeduras. Desta forma, deverá ser preferido o látex em relação ao silicone, uma vez que exige à criança uma menor força de sucção e há uma menor deformação do palato. No entanto, este material exige uma higienização mais efetiva.


O disco da chupeta é uma garantia de segurança, pois evita que a criança engula a chupeta acidentalmente. Deve ter furos (buracos de ventilação), para evitar que ocorra asfixia.


Há também crianças que nunca usam chupeta. Usando ou não, o importante é que a criança nunca fale com a chupeta na boca, uma vez que a língua adquire um posicionamento errado na articulação dos sons da fala, e a criança começa a falar à “sopinha de massa” pelo facto de a língua adquirir uma posição mais anterior.


Convencer uma criança a deixar de utilizar a chupeta ou biberão ou deixar de chuchar no dedo nem sempre é fácil e pode tornar-se uma verdadeira batalha. Efetivamente, quanto mais cedo ocorrer a eliminação deste hábito oral, maior a probabilidade de corrigir ou atenuar as alterações, principalmente se ocorrer ainda durante a fase de dentição decídua (de leite). Desta forma, a idade ideal para retirar a chupeta é aos 2 anos e a idade limite é aos 3 anos, pois após esta fase o seu uso poderá ter mais consequências do ponto de vista da mobilidade e força da língua e formato da cavidade oral, formando a tão característica “boca de chupeta”, com consequências ao nível da fala, do modo respiratório (respiração oral) e da fala da criança.


No entanto, é preciso não esquecer de olhar para a criança como um todo e tendo em conta que estamos a querer acabar com algo de que gosta e a acalma, devemos considerar se o momento é oportuno. Isto é, não deverá ocorrer em simultâneo com outras mudanças, tais como o desfralde, cirurgias ou com a chegada de um irmão. Dever-se-á aproveitar oportunidades em que se note algum desinteresse pontual pela chupeta ou biberão.

É fundamental envolver a criança no processo. Ser imaginativo e entrar no mundo da fantasia da criança é meio caminho andado. Para tal, converse com a criança, combinem que vão oferecer a chupeta ou o biberão ao Pai Natal, Coelho da Páscoa, a uma personagem preferida, ou oferecer a um bebé de um familiar.


A criança deverá estar motivada para deixar a chupeta. Algumas estratégias para deixar a chupeta ou minimizar o seu uso são as seguintes:

  • Diminuir o tempo de utilização da chupeta, utilizando apenas para adormecer;

  • Associar a retirada da chupeta ao facto de a criança estar mais crescida e dar um reforço positivo para isso mesmo;

  • Partilhar essa conquista no núcleo mais próximo da criança e apresentar sempre essa vontade como uma conquista;

  • Ter apenas uma chupeta e não a ter sempre acessível no período da “retirada”;

  • Não comprar mais chupetas se a criança tiver mais de 2 anos e tiver estragado a sua chupeta, deverá aproveitar o momento para retirar a chupeta;

  • Procurar fazer uma transição da chupeta para outro brinquedo do gosto da criança, por exemplo um brinquedo de que goste e vá com ela para a cama para ajudar a adormecer.

Quanto à sucção digital, comparativamente com a chupeta, pode ser mais difícil de eliminar, pelo facto de não conseguirmos retirar o dedo como retiramos a chupeta. O primeiro passo para eliminar este hábito será sempre conversar com a criança. É, também, importante valorizar os períodos em que não está com o dedo na boca. Caso aconteça em meninas, pintar as unhas pode ser motivador.

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