• Alexandra Gomes

Avós e netos: o segredo da cumplicidade (II)

Volvidos mais de 40 anos, o António recorda-se do primeiro dia de escola como se fosse hoje. Levado pela mão da sua avó, na dianteira de todos, tal era a sua convicção de que a entrada para a escola era um marco tão importante, a mesma não deixou de advertir, “Professor, se ele se portar mal, castigue-o”, como que a responsabilizar o seu neto para uma grande nova etapa da sua vida!


Ainda assim, houve frases diretas para o pequeno António, nesse mesmo dia: uma espécie de Karma, do princípio “comportamento gera comportamento”, do valor “respeita para seres respeitado” e do conselho “não tens que ser amigo de todos, mas a todos deves respeitar”. Todas estas sábias lições prevaleceram até aos dias de hoje.


Os avós do António não sabiam ler, consequência da vida agreste que o Estado Novo lhes proporcionou e cuja batalha diária era para satisfazer as necessidades básicas. Com o António quebraram o Ciclo, proporcionando-lhe experiências a que nunca tiveram acesso e com a noção permanente de que a aprendizagem e o estudo eram ferramentas importantes para o futuro e para a capacidade de pensar e emitir opiniões próprias.


Os privilégios sucediam-se e qualquer que fosse o seu horário, estava sempre alguém em casa para acolher o António com um delicioso lanche e com a saudosa pergunta “como correu o teu dia?”. Nessas tardes, a avó sentava-se ao seu lado e, mesmo nos dias menos bons, havia o cuidado de se fazer sentir, através de um abraço, permitindo ao pequeno António, a expressão da sua tristeza e, várias vezes, chorando com ele! Estes momentos geraram, no António, a sua grande sensibilidade para o bem e para o mal, suplantando-se muito mais o bem, do que o mal.


Os acontecimentos espantosos sucediam-se e as interrogações do pequeno António, embora desafiantes, eram passíveis de resposta, quando colocadas aos seus avós, sob a forma de inquietudes. Sem saber ler nem escrever, o António escutava a velha frase “ou fazes bem ou estás quieto”, relativamente aos trabalhos de casa que o pequeno por vezes aldrabava, mas que logo era percebido pelos avós. Estes, orgulhosamente transmitiam ao António que tudo a que se propunha na vida devia ser de entrega total e feito da melhor forma que pudesse ser feito.


Com o passar do tempo, o ensinamento tornou-se bidirecional e o pequeno António ensinou os seus avós a escreverem o básico e a assinarem o seu nome, como forma de expressar a sua gratidão pelo que sempre fizeram por ele.

Com o passar dos anos, os papéis foram-se invertendo e era o António que se sentava junto dos seus avós a ouvir e a ampará-los, nos momentos em que as forças não eram as maiores, pelo avanço da idade. Tinha chegado a vez de retribuir e ajudar os seus avós, mesmo que isso custasse ao já adulto António, vários sacrifícios, num mundo tão agitado e intolerante. Afinal, quando ele precisou, os avós estiveram presentes e de tudo isto surgiu o valor da Partilha, entalhado em pequenos detalhes.

Hoje, quando pensa nos seus já falecidos avós, o António sorri, sorri muito! Eles estão sempre presentes na sua vida e são como que uma força motriz, viva no seu coração e manifesta em muitas das suas atitudes e expressões. Ainda é tão presente a memória daquele deitar aconchegante, sempre com a mesma frase de despedida “Para hoje está feito, amanhã vê-se”, lembrando que tudo é efémero e que cada dia deve ser encarado como um novo renascer, uma nova oportunidade, de mãos desprendidas para a Vida, sem nunca as ter apegadas a nada, evitando o sufoco por preconceitos e superstições e com um gosto intenso e inigualável pela Vida, saboreando-a como se cada dia fosse o último disponível numa entrega e numa vivência completas.


Estes foram os maiores ensinamentos que o António teve da sua infância: o de uma vida simples, o de que não é necessário muito para ser feliz, o ser feliz em plenitude quando se faz o outro feliz, o de que cada um é dono do rumo da sua vida, recordando sempre a frase “com pouco se faz muito e do nada se faz tudo!”.


Expressando o registo do António, foi “um privilégio ter partilhado grande parte do meu Caminho com os meus avós, numa fase tão importante da minha vida e na qual eles estavam tão disponíveis. É algo que agradeço diariamente e cujo legado faço por respeitar e dignificar cada dia da minha vida… Obrigado, saudosos avós, pelo Segredo da Cumplicidade”!

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