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Birras e explosões emocionais: o que estão as crianças a comunicar?

  • Foto do escritor: Marta Neto
    Marta Neto
  • há 17 horas
  • 5 min de leitura

É quase um rito de passagem: a criança atira-se para o chão do supermercado, grita, bate os pés, e todos os olhares se viram para nós. Para muitos pais e educadores, a birra é interpretada como um "teste de limites", uma manipulação ou, na pior das hipóteses, um sinal de mau comportamento. Mas a investigação em desenvolvimento infantil conta uma história diferente e muito mais útil para quem lida com crianças no dia a dia.


As birras são normais (e até previsíveis)


Antes de mais, vale a pena desdramatizar: as birras fazem parte do desenvolvimento típico. Estudos longitudinais mostram que a esmagadora maioria das crianças entre os 18 e os 36 meses tem birras regularmente, com prevalências a rondar os 87% aos 18-24 meses e os 91% aos 30-36 meses, descendo depois para cerca de 59% aos 42-48 meses, à medida que a criança desenvolve outras formas de comunicar frustração. Só uma pequena percentagem de crianças (cerca de 8 a 9%) tem birras diárias, e é sobretudo a frequência muito elevada, a duração prolongada ou a presença de agressão e autolesão que devem levantar a questão de pedir apoio especializado.


Por outras palavras: se o seu filho ou aluno faz birras, isso não é sinal de que algo está mal, é sinal de que é uma criança pequena com um cérebro ainda em construção.


O que está a acontecer no cérebro?


A neurociência do desenvolvimento oferece uma explicação simples e poderosa. Segundo o psiquiatra Daniel Siegel e a especialista em parentalidade Tina Payne Bryson, o cérebro infantil pode ser pensado como tendo um "andar de cima", responsável pelo raciocínio, planeamento e regulação emocional, e um "andar de baixo", ligado às reações mais primárias e instintivas. O problema é que o andar de cima está literalmente em obras: as estruturas do córtex pré-frontal responsáveis pelo autocontrolo só amadurecem por completo perto dos vinte anos. Nas crianças pequenas, é o "andar de baixo" que domina, o que explica por que razão, no calor de uma birra, argumentos lógicos ("mas eu já te expliquei que não podes") simplesmente não resultam.


Isto não significa que a criança não tenha culpa de nada ou que os adultos não devam intervir. Significa apenas que, durante o pico da birra, a criança não está em condições neurológicas de raciocinar. A prioridade nesse momento não é ensinar, é ajudar a regular.


A birra tem uma anatomia própria

Um dos contributos mais interessantes para compreender as birras vem do trabalho dos investigadores Michael Potegal e Richard Davidson, que gravaram e analisaram ao pormenor centenas de birras reais. Descobriram que uma birra típica não é um bloco emocional único, mas uma combinação de duas emoções distintas: raiva (gritos, pontapés, atirar objetos) e tristeza/aflição (choro, lamento, procura de conforto). A raiva tende a atingir o pico perto do início e depois vai diminuindo, enquanto a tristeza permanece mais constante ao longo de todo o episódio.


Esta descoberta tem uma implicação prática importante: tentar argumentar ou acalmar com palavras precisamente no pico de raiva costuma prolongar a birra, porque a atenção extra (mesmo que bem-intencionada), pode realimentar essa fase. O momento mais eficaz para oferecer conforto e proximidade física é quando a raiva começa a ceder lugar à tristeza. É aí que a criança está biologicamente disponível para ser confortada.



Então, o que está a criança a dizer?

Vista deste modo, a birra deixa de ser um comportamento a eliminar e passa a ser uma mensagem a descodificar. Frequentemente comunica coisas como:


  • "Não tenho vocabulário emocional para dizer o que sinto."

  • "Estou sobrecarregado(a) — cansaço, fome ou excesso de estímulo ultrapassaram a minha capacidade de regulação."

  • "Quero mais autonomia do que aquela que me é permitida neste momento."

  • "Preciso de saber que, mesmo quando perco a cabeça, continuo a ser amado(a) e aceite.”



Como responder: nem reprimir, nem ceder

A tentação de muitos adultos oscila entre dois extremos: reprimir ("para já com isso" / castigo imediato) ou ceder (dar o que a criança pede só para a birra parar). Ambas as estratégias, quando usadas de forma sistemática, ensinam lições indesejadas. A repressão ensina que as emoções intensas não são aceitáveis e devem ser escondidas; a cedência ensina que a birra é uma ferramenta eficaz para obter o que se quer. Existe um caminho intermédio, sustentado por décadas de investigação sobre regulação emocional.


1. Regule-se primeiro a si próprio. Um adulto que grita ou entra em escalada torna-se mais um fator de desregulação.


2. Reconheça a emoção antes de gerir o comportamento. John Gottman, propõe cinco passos: 

  • Estar atento às emoções da criança.

  • Reconhecer os momentos emocionalmente intensos como oportunidades de aprendizagem e não como algo incómodo.

  • Ouvir e validar o que a criança sente.

  • Ajudar a criança a colocar essa emoção em palavras.

  • Ajudar a resolver o problema, estabelecendo limites claros ao comportamento (não à emoção). A investigação de Gottman associa este estilo parental a crianças com melhor regulação emocional, melhores relações sociais e melhor desempenho escolar, comparativamente com estilos que dispensam ou ignoram as emoções.


3. Separe emoção de comportamento. "Estás muito zangado, percebo, e ainda assim não posso deixar-te bater". Todas as emoções são legítimas; nem todos os comportamentos são aceitáveis.


4. Evite o raciocínio a meio da tempestade. Como sugerido pela investigação de Potegal, fazer perguntas ou negociar durante o pico de raiva tende a prolongar a birra. É mais eficaz manter-se presente, calmo e disponível, e reservar a explicação e a reflexão para depois, quando a criança já está regulada.


5. Depois da tempestade, converse. Quando a criança está calma, é a altura de rever o que aconteceu, ajudar a nomear a emoção sentida e pensar em conjunto noutras formas de a expressar da próxima vez. Este passo é essencial para o desenvolvimento a longo prazo da autorregulação, mas é ineficaz durante a crise.


Para professores e educadores:

Em contexto de sala de aula ou creche, os mesmos princípios aplicam-se, com ajustes práticos: garantir um espaço seguro onde a criança possa desregular sem se magoar ou magoar outros, manter uma postura calma e previsível, e evitar que a birra se torne um espetáculo com plateia (o que pode intensificar ou prolongar o episódio noutras crianças, por imitação ou procura de atenção). É também importante comunicar com as famílias de forma colaborativa, partilhando observações sobre padrões (quando ocorrem, com que frequência, o que parece desencadeá-las) sem rotular a criança como "problemática".


Quando procurar ajuda especializada?

A maioria das birras não exige intervenção clínica. No entanto, é aconselhável procurar avaliação psicológica quando as birras são muito frequentes (várias vezes por dia), muito prolongadas, envolvem agressão significativa ou autolesão persistente, ou continuam com a mesma intensidade muito depois dos 4-5 anos, sobretudo se se associarem a dificuldades noutras áreas do desenvolvimento.


Marta Neto |Psicóloga, Cédula OPP – 29547|


Referências Bibliográficas:

  • Gottman, J. M. (1998). Raising an Emotionally Intelligent Child: The Heart of Parenting. Nova Iorque: Simon & Schuster. 

  • Gottman, J. M., Katz, L. F., & Hooven, C. (1997). Meta-Emotion: How Families Communicate Emotionally. Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum Associates. 

  • Hoyniak, C. P., et al. (2023). Developmental Pathways from Preschool Temper Tantrums to Later Psychopathology. Disponível em PMC (National Center for Biotechnology Information). 

  • Österman, K., & Björkqvist, K. (2010). A Cross-Sectional Study of Onset, Cessation, Frequency, and Duration of Children's Temper Tantrums in a Nonclinical Sample. Psychological Reports

  • Potegal, M., & Davidson, R. J. (2003). Temper Tantrums in Young Children: 1. Behavioral Composition. Journal of Developmental & Behavioral Pediatrics, 24(3), 140-147. 

  • Siegel, D. J., & Bryson, T. P. (2011). The Whole-Brain Child: 12 Revolutionary Strategies to Nurture Your Child's Developing Mind. Nova Iorque: Bantam Books. 

  • Siegel, D. J., & Bryson, T. P. (2014). No-Drama Discipline: The Whole-Brain Way to Calm the Chaos and Nurture Your Child's Developing Mind. Nova Iorque: Bantam Books.

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