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Há alunos que chegam à escola com uma mochila que não vemos

  • Foto do escritor: Marta Neto
    Marta Neto
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

Todas as crianças chegam à escola com uma mochila.

Algumas trazem livros, cadernos, uma garrafa de água e talvez um brinquedo esquecido no fundo. Outras trazem também coisas que não conseguimos ver.

Preocupações com o que aconteceu em casa. Medo de falhar. Conflitos entre adultos. Dificuldades económicas. Solidão. Uma noite mal dormida. A sensação de não pertencer. Uma experiência de rejeição. A preocupação com alguém de quem gostam.


E há crianças cuja mochila parece, simplesmente, mais pesada.

O problema é que, dentro da sala de aula, não vemos as mochilas. Vemos comportamentos.

Vemos o aluno que não consegue estar quieto, a criança que se irrita facilmente, o adolescente que parece não se importar, aquele que se recusa a fazer a tarefa ou a aluna que passa a aula inteira em silêncio.

E é aqui que começa uma das tarefas mais difíceis e mais importantes de quem educa: tentar compreender o que estamos a ver sem presumir que já sabemos porquê.


O comportamento é aquilo que vemos. Não é necessariamente a história toda.

Quando um aluno interrompe constantemente, podemos pensar que é desrespeitador. Quando não realiza uma tarefa, podemos concluir que é preguiçoso. Quando reage de forma desproporcionada, podemos considerá-lo mal-educado ou pouco tolerante à frustração.

Por vezes, estas interpretações podem estar corretas. Mas também podem não estar.

O comportamento resulta da interação entre características individuais e contexto. O desenvolvimento infantil e adolescente é influenciado por relações, experiências familiares, condições sociais, escola, pares e acontecimentos de vida. A investigação sobre adversidade na infância mostra, de forma consistente, que experiências adversas podem estar associadas a consequências no desenvolvimento, na saúde mental e no funcionamento escolar. Isto não significa, contudo, que uma experiência adversa determine o futuro de uma criança.


Risco não é destino.

Uma criança que viveu adversidade não está condenada a apresentar dificuldades. E uma criança que apresenta dificuldades não vive necessariamente uma situação de adversidade.

Por isso, a metáfora da mochila não deve servir para explicar tudo. Deve servir para nos lembrar de uma coisa mais simples: há informação relevante sobre aquele aluno que nós podemos não ter.


Quando confundimos comportamento com intenção

Existe uma tendência humana para interpretarmos rapidamente o comportamento dos outros. 

Se alguém chega atrasado, podemos pensar que é irresponsável. Se não responde à nossa mensagem, podemos pensar que nos está a ignorar. Se um aluno não faz o trabalho, podemos concluir que não quer saber.

Na escola, estas interpretações podem ter consequências importantes.

Um aluno que evita uma tarefa pode estar desmotivado. Mas também pode estar convencido de que não vai conseguir realizá-la. Pode não ter compreendido as instruções. Pode estar preocupado com a possibilidade de falhar diante dos colegas. Pode estar cansado. Ou pode, simplesmente, não querer fazer a tarefa.

O mesmo comportamento pode ter funções diferentes.

É por isso que observar não é o mesmo que interpretar.

Dizer “ele está desatento” descreve aquilo que observamos. Dizer “ele não quer saber” já é uma interpretação sobre aquilo que não conseguimos observar diretamente. Esta diferença, aparentemente pequena, pode mudar a forma como respondemos.


A mochila não é uma desculpa

Compreender o contexto de uma criança não significa desculpar todos os comportamentos.


Uma criança pode estar a passar por dificuldades e continuar a precisar de limites. Pode precisar de apoio e, simultaneamente, de aprender que determinadas formas de comportamento não são aceitáveis.

Na verdade, segurança e previsibilidade podem ser particularmente importantes para crianças que vivem situações de maior instabilidade. O objetivo não é substituir limites por permissividade.

É substituir algumas perguntas:

“O que há de errado com este aluno?”


Podemos acrescentar:


“O que poderá estar a acontecer com este aluno?”


Nem tudo é trauma

Nos últimos anos, a linguagem do trauma entrou com força no discurso educativo. Isso trouxe uma maior consciência para a importância das experiências adversas, mas também trouxe alguns riscos.

Há uma diferença entre reconhecer que experiências adversas podem afetar o desenvolvimento e assumir que todo o comportamento difícil é uma manifestação de trauma.

Não é.

Nem toda a criança irritável está traumatizada. Nem todo o adolescente desmotivado está deprimido. Nem todo o aluno que desafia um professor está a expressar sofrimento. Uma abordagem psicologicamente informada não significa procurar uma explicação emocional profunda para cada comportamento.

Significa manter várias hipóteses em aberto. Significa observar padrões, conversar com o aluno, conhecer o contexto, recolher informação e, quando necessário, envolver outros profissionais.

E significa também saber reconhecer os limites do papel do professor. O professor não precisa de diagnosticar para poder ajudar.


O que podemos fazer com aquilo que não vemos?


Talvez não seja possível conhecer todas as mochilas. E talvez nem seja necessário. Podemos, contudo, criar salas de aula onde exista espaço para diferentes pontos de partida.

Isso passa por estabelecer relações previsíveis e respeitadoras, definir expectativas claras, ensinar explicitamente comportamentos e competências, oferecer oportunidades para pedir ajuda e evitar interpretações precipitadas.

Passa também por perceber que uma relação positiva com um adulto significativo pode constituir um importante recurso para uma criança, particularmente quando existem outras fontes de adversidade.

Mas existe outra dimensão igualmente importante: não devemos colocar sobre o professor a responsabilidade de resolver tudo aquilo que existe dentro da mochila.

Algumas situações exigem intervenção especializada. Outras exigem apoio familiar ou comunitário. Outras requerem respostas da própria escola.

O professor pode ser uma figura de segurança, um observador atento e uma ponte para o apoio adequado. Não precisa de ser terapeuta.


Talvez a mochila mais importante seja aquela que não conseguimos ver

Quando olhamos para uma criança, vemos o comportamento que acontece naquele momento.

Não vemos necessariamente o que aconteceu antes de entrar pela porta da escola. Não sabemos sempre quanto dormiu, o que ouviu em casa, aquilo que teme, aquilo que deseja ou a forma como se sente relativamente a si própria.

Isso não significa que devamos inventar histórias para explicar o comportamento.

Significa apenas que devemos ter humildade suficiente para reconhecer aquilo que não sabemos.

Talvez seja essa a verdadeira utilidade da metáfora da mochila: não nos pede para adivinhar o que cada criança carrega; pede-nos apenas para recordar que há coisas que não vemos.


Educar não significa conhecer toda a história de uma criança.

Significa criar condições para que, qualquer que seja a história que ela traz consigo, a escola possa ser um lugar onde não precise de a carregar sozinha.


Marta Neto |Psicóloga, Cédula Profissional, Nº 29547|


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