Como lidar com o medo de falhar?
- Viviana Marinho

- há 11 minutos
- 4 min de leitura
“E se eu não conseguir?”
“E se fizer mal?”
“E se os outros forem melhores do que eu?”
O medo de falhar faz parte da vida. Surge perante um teste, uma apresentação, uma competição, uma decisão importante ou simplesmente quando temos de experimentar algo novo.
Em pequenas doses, este medo pode até ser útil: leva-nos a preparar, antecipar dificuldades e procurar fazer melhor. O problema surge quando o medo de não conseguir se torna tão intenso que nos impede de tentar.
Nas crianças e jovens, nem sempre é fácil reconhecê-lo. Por vezes, o medo de falhar não aparece sob a forma de medo. Aparece como irritação, perfeccionismo, procrastinação, desistência, ansiedade ou até através de um aparentemente despreocupado “não quero saber”.
Por detrás desse comportamento pode existir uma pergunta muito diferente:
“E se eu tentar e descobrir que não sou capaz?”
De onde vem o medo de falhar?
Não existe uma única causa.
Pode surgir depois de experiências repetidas de insucesso, da comparação constante com os outros, de expectativas muito elevadas ou da necessidade de corresponder àquilo que sentimos que esperam de nós.
Também pode crescer quando começamos a associar o resultado ao nosso próprio valor.
Uma coisa é pensar:
“Este teste não me correu bem.”
Outra, muito diferente, é concluir:
“Sou mau aluno.”
Uma coisa é reconhecer:
“Não consegui fazer isto.”
Outra é acreditar:
“Eu não sou capaz.”
Quando um resultado deixa de ser apenas um resultado e passa a ser entendido como uma prova da nossa capacidade, errar torna-se muito mais ameaçador.
Quando o perfeccionismo também esconde medo
Nem sempre a pessoa que tem medo de falhar é aquela que desiste.
Às vezes, é precisamente aquela que parece querer fazer tudo muito bem.
A criança que apaga uma resposta várias vezes porque nunca está suficientemente boa. O jovem que demora horas num trabalho porque sente que tem de ficar perfeito. Quem estuda excessivamente porque uma nota abaixo daquilo que espera é vivida como um fracasso.
O perfeccionismo pode criar uma exigência difícil de sustentar:
“Só vale a pena se eu fizer muito bem.”
Mas aprender implica experimentar, corrigir, voltar atrás e não saber algumas respostas.
Quando não existe espaço para errar, também começa a existir menos espaço para aprender.
Porque é que começamos a evitar?
Se uma situação nos provoca desconforto, evitá-la traz um alívio imediato.
Não participo na aula, por isso não corro o risco de responder errado. Não me candidato, por isso não posso ser rejeitado.Não experimento uma atividade nova, por isso ninguém verá que ainda não sei fazê-la.
No momento, funciona: a ansiedade diminui.
Mas existe um problema. Cada vez que evitamos uma situação por medo, perdemos a oportunidade de descobrir que talvez conseguíssemos lidar com ela — mesmo que não corresse perfeitamente.
Pouco a pouco, o cérebro aprende:
“Evitar protege-me.”
E o medo pode começar a limitar escolhas, experiências e oportunidades.
Então, como podemos aprender a lidar com o medo de falhar?
O primeiro passo não é eliminar o medo. É aprender a avançar apesar dele.
Podemos começar por mudar a forma como interpretamos o erro. Em vez de perguntar apenas “Consegui ou não consegui?”, podemos perguntar:
“O que correu melhor do que esperava?”
“O que foi mais difícil?”
“O que faria de forma diferente numa próxima vez?”
“Que parte depende de mim?”
“O que aprendi com esta tentativa?”
O erro deixa, assim, de representar o fim do processo e passa a fornecer informação sobre o próximo passo.
Também ajuda dividir desafios grandes em objetivos mais pequenos. Para alguém com muito medo de apresentar um trabalho, por exemplo, o primeiro objetivo pode não ser falar perfeitamente perante uma turma inteira. Pode começar por explicar o tema a uma pessoa, depois a um pequeno grupo e aumentar gradualmente o desafio.
A confiança não aparece sempre antes de tentarmos. Muitas vezes, constrói-se precisamente porque tentámos.
O que dizemos perante o erro também importa
A forma como os adultos reagem aos erros das crianças e jovens pode influenciar a maneira como estes aprendem a interpretá-los.
Quando valorizamos apenas o resultado — a nota, a vitória, o desempenho perfeito — podemos, sem intenção, transmitir a ideia de que o mais importante é acertar.
Podemos também valorizar o processo:
“Gostei de ver que tentaste outra estratégia.”
“O que descobriste com este erro?”
“Percebi que foi difícil e continuaste.”
“Ainda não consegues. O que podemos experimentar agora?”
Isto não significa elogiar tudo nem fingir que um resultado negativo não importa.
Significa mostrar que um resultado pode ser analisado, compreendido e melhorado sem definir quem somos.
Falhar não é o contrário de conseguir
Ao longo da vida haverá testes que não correm como esperávamos, objetivos que demoram mais tempo, oportunidades que não conseguimos e decisões que gostaríamos de ter tomado de outra forma.
Lidar com o medo de falhar não significa chegar a um ponto em que deixamos de sentir nervosismo, frustração ou desilusão.
Significa desenvolver a capacidade de pensar:
“Isto não correu como eu queria. E agora, qual é o próximo passo?”
Porque talvez a verdadeira confiança não esteja em acreditar que vamos conseguir sempre.
Está em saber que, quando não conseguirmos, somos capazes de aprender, reajustar e tentar novamente.


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