Estamos a criar alunos brilhantes e adultos indefesos?
- Marta Neto

- há 3 horas
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Há uma pergunta que talvez devêssemos fazer com mais frequência quando falamos de educação:
Estamos a preparar os nossos alunos para terem sucesso na escola ou para terem sucesso na vida?
À primeira vista, parece uma distinção desnecessária. Afinal, uma boa escola deve ensinar conhecimento, desenvolver competências e preparar os jovens para o futuro. Podemos ter alunos capazes de obter excelentes resultados, cumprir prazos, estudar para um teste e reproduzir aquilo que aprenderam, mas que, perante um problema sem instruções, uma decisão difícil ou um fracasso inesperado, não sabem muito bem o que fazer.
E talvez a questão não seja apenas da escola. É também nossa.
O aluno que sabe a resposta, mas não sabe o que fazer com o problema.
A vida adulta é consideravelmente menos organizada
Ninguém entrega um enunciado quando temos de escolher uma carreira. Não existe grelha de correção quando precisamos de resolver um conflito no trabalho. Não há quatro opções de resposta quando temos de decidir se devemos mudar de emprego, gerir o nosso dinheiro ou lidar com uma relação difícil.
A vida raramente pergunta: “Qual é a resposta correta?”
Pergunta antes: “O que vais fazer agora?”
É aqui que entram competências menos visíveis nos tradicionais indicadores de sucesso escolar: autonomia, autorregulação, capacidade de tomar decisões, tolerância à frustração, flexibilidade, persistência e capacidade de resolver problemas.
A investigação sobre funções executivas aponta precisamente para a importância destas capacidades. Planear, manter a atenção, controlar impulsos, adaptar estratégias e tomar decisões não são características com que simplesmente nascemos; desenvolvem-se através da experiência e da prática.
Isto deveria fazer-nos pensar.
Não podemos exigir autonomia a um jovem se passámos anos a fazer tudo por ele.
Queremos que os nossos filhos sejam autónomos, responsáveis e confiantes. Mas, ao mesmo tempo, muitas vezes temos dificuldade em deixá-los experimentar precisamente aquilo que produz autonomia: fazer escolhas, cometer erros, lidar com consequências e resolver problemas.
Um trabalho escolar demasiado difícil? Intervimos.
Uma nota abaixo do esperado? Questionamos o professor.
Uma tarefa esquecida? Lembramos.
Um conflito entre colegas? Resolvemos.
Uma decisão complicada? Escolhemos por eles.
É compreensível. Faz parte do instinto de proteção.
O problema surge quando proteger deixa de significar criar condições para crescer e passa a significar eliminar sistematicamente todas as dificuldades.
Uma criança que nunca precisa de organizar a mochila dificilmente aprende a organizar-se. Um adolescente a quem os adultos resolvem todos os conflitos dificilmente aprende a negociar. Um jovem que nunca pode falhar dificilmente aprende a recuperar de um fracasso.
Autonomia não se ensina apenas através de discursos sobre responsabilidade.
Treina-se.
Quando a escola também pode cair na mesma armadilha?
Seria injusto colocar toda a responsabilidade nas famílias.
A própria escola está muitas vezes organizada para valorizar aquilo que é fácil de medir: resultados, classificações, cumprimento de conteúdos, desempenho em testes.
Naturalmente, medir é importante. O conhecimento importa. As competências académicas importam. Um sistema educativo que não ensine matemática, língua, ciência, história ou pensamento rigoroso está a falhar na sua missão.
Mas há coisas fundamentais que são mais difíceis de colocar numa pauta:
- Como avaliamos a capacidade de um aluno para continuar a tentar quando não consegue?
- Como atribuímos uma classificação à capacidade de lidar com a incerteza?
- Como medimos a autonomia?
- Ou a capacidade de pedir ajuda?
- Ou a coragem para mudar de estratégia quando a primeira não funciona?
A OCDE analisa atualmente dimensões como aprendizagem autónoma, bem-estar, motivação, ansiedade e capacidade de adaptação. Nos resultados do PISA 2022, a OCDE identificou precisamente a preparação para a aprendizagem autónoma como uma das características associadas a sistemas educativos mais resilientes.
Ou seja: preparar alunos para aprenderem sozinhos não é uma competência periférica. É uma competência para a vida.
Segundo o estudo internacional HBSC da Organização Mundial da Saúde, a pressão sentida com o trabalho escolar aumentou entre 2014 e 2022, sobretudo entre as raparigas adolescentes. Entre os jovens de 15 anos, Portugal surge entre os países com níveis particularmente elevados de pressão escolar; no relatório, 73% das raparigas e 61% dos rapazes portugueses dessa idade referem sentir-se pressionados pelo trabalho escolar.
Isto não significa que a exigência académica seja má.
Significa que precisamos de distinguir exigência de pressão, e apoio de sobreproteção.
Um aluno precisa de desafios. Mas também precisa de aprender a lidar com eles.
Não precisamos de alunos menos exigentes. Precisamos de alunos mais capazes.
Talvez a conclusão não seja baixar a fasquia. Pelo contrário. Talvez devêssemos elevar a fasquia, mas mudar aquilo que consideramos sucesso.
Um aluno verdadeiramente preparado não é apenas aquele que consegue obter 18 valores.
- É aquele que consegue olhar para um problema novo e começar a desmontá-lo.
- Que consegue ouvir “não”.
- Que consegue receber uma crítica sem interpretar essa crítica como uma catástrofe.
- Que consegue admitir “não sei”.
- Que consegue pedir ajuda sem esperar que alguém faça o trabalho por ele.
- Que consegue organizar o próprio tempo.
- Que consegue tomar uma decisão e assumir as suas consequências.
E que, sobretudo, consegue continuar a aprender quando já não existe um professor, um manual ou um teste a dizer-lhe exatamente o que fazer.
Talvez devêssemos deixar as crianças e jovens fazerem mais coisas sozinhos
- Deixar uma criança esquecer-se ocasionalmente do material em casa.
- Permitir que um adolescente escolha, e eventualmente escolha mal.
- Não intervir imediatamente perante todos os conflitos.
- Dar tempo para que um aluno tente resolver um problema antes de lhe mostrarmos a solução.
- Fazer perguntas em vez de dar respostas.
E, sobretudo, aceitar que uma pequena dose de desconforto pode ser educativa.
Não estamos a falar de abandonar crianças à sua sorte. Nem de romantizar o sofrimento ou o fracasso. Estamos a falar de uma diferença fundamental entre estar disponível para ajudar e impedir que o outro tenha de aprender a resolver.
Afinal, que adulto estamos a tentar formar?
Existem perguntas que têm de ser feitas com seriedade.
“Que nota teve?” - Mas consegue aprender sozinho?
“Entrou na universidade?” - Mas consegue tomar decisões?
“Tem um bom currículo?” – Mas consegue adaptar-se quando o mundo muda?
“Nunca chumbou?” – Mas o que aprendeu quando alguma coisa correu mal?
A escola tem uma responsabilidade enorme na formação dos jovens. As famílias também. E a sociedade, como um todo, não pode ficar de fora.
Porque talvez o verdadeiro indicador de sucesso de um sistema educativo não seja apenas aquilo que um aluno consegue fazer enquanto alguém lhe diz o que fazer.
Talvez seja aquilo que consegue fazer quando ninguém lhe diz. E essa é uma ideia desconfortável. Porque nos obriga a olhar não apenas para os alunos que estamos a formar, mas também para a quantidade de coisas que, em nome do seu sucesso, estamos constantemente a fazer por eles.
Talvez não estejamos a criar alunos brilhantes e adultos indefesos.
Mas vale a pena garantir que, quando esses alunos brilhantes se tornam adultos, não precisam de uma pauta, de uma instrução ou de alguém a dizer-lhes qual é a resposta certa para conseguirem avançar.
Não precisamos de abandonar os alunos para que sejam autónomos. Precisamos de deixar de fazer por eles aquilo que eles precisam de aprender a fazer.
Marta Neto |Psicóloga, Cédula Profissional. Nº29547|
Referências bibliográficas
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