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O Impacto da Violência Doméstica no Desenvolvimento Infantil: quando as crianças veem o que não deveriam ver

  • Foto do escritor: Marta Neto
    Marta Neto
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

"Uma criança que cresce numa casa onde existe violência doméstica é sempre uma vítima, mesmo que nunca lhe levantem a mão."

 

A exposição à violência doméstica constitui uma experiência potencialmente traumática, capaz de afetar o desenvolvimento emocional, cognitivo, social e até físico das crianças. Quando uma criança assiste a discussões violentas, ouve gritos vindos do quarto ao lado, presencia agressões entre os cuidadores ou vive num clima constante de ameaça e insegurança, o seu organismo entra num estado de alerta permanente. O corpo e o cérebro aprendem que o mundo pode não ser um lugar seguro.

 

O que significa estar exposto à violência doméstica?

Por vezes, imaginamos que uma criança exposta à violência doméstica é apenas aquela que presencia diretamente as agressões. Contudo, a exposição pode assumir muitas formas. Uma criança pode:

 

  • Ouvir os episódios de violência sem os ver;

  • Ver as consequências físicas e emocionais das agressões num dos cuidadores;

  • Ser utilizada como instrumento de manipulação ou controlo entre os adultos;

  • Viver num ambiente de medo, tensão e imprevisibilidade;

  • Ser obrigada a intervir ou a proteger um dos progenitores;

  • Conviver diariamente com o impacto emocional que a violência provoca em toda a dinâmica familiar.

 

Mesmo quando os adultos acreditam que as crianças "não perceberam nada", estas são extraordinariamente sensíveis ao ambiente emocional que as rodeia. Muitas vezes, percebem mais do que conseguem verbalizar.

 

O que acontece no cérebro de uma criança exposta à violência?

 

O desenvolvimento infantil depende, em grande medida, da existência de relações seguras e previsíveis. Quando a criança vive sob stress intenso e prolongado, o seu sistema nervoso mantém-se em estado de hipervigilância. Em vez de direcionar recursos para explorar, aprender e brincar, o cérebro concentra-se em garantir a sobrevivência.

 

A investigação em neurodesenvolvimento demonstra que a exposição crónica ao stress pode influenciar áreas cerebrais responsáveis pela regulação emocional, memória, atenção e tomada de decisão. Em termos simples, o cérebro da criança adapta-se ao perigo. O problema é que esta adaptação, que é útil num ambiente ameaçador, pode tornar-se prejudicial quando interfere com o desenvolvimento saudável.

 

Algumas crianças tornam-se excessivamente vigilantes, facilmente assustadas ou ansiosas. Outras parecem desligadas emocionalmente, apresentam dificuldades de concentração ou revelam alterações significativas do comportamento. Cada criança reage de forma diferente, mas nenhuma permanece indiferente ao contexto em que cresce.

 

Que sinais podem surgir?

Os impactos da violência doméstica variam consoante a idade da criança, a duração da exposição, a existência de fatores protetores e o apoio recebido. Entre os sinais mais frequentes encontram-se:

 

Na primeira infância:

  • Perturbações do sono;

  • Irritabilidade e choro frequente;

  • Atrasos no desenvolvimento;

  • Ansiedade de separação;

  • Maior dificuldade em regular emoções.

 

Em idade escolar:

  • Dificuldades de concentração e aprendizagem;

  • Queixas físicas recorrentes (dores de barriga ou de cabeça);

  • Comportamentos agressivos ou oposição;

  • Baixa autoestima;

  • Isolamento social.

 

Na adolescência:

  • Sintomas ansiosos e depressivos;

  • Comportamentos de risco;

  • Dificuldades nas relações interpessoais;

  • Problemas de autorregulação emocional;

  • Maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de problemas de saúde mental.

 

Importa sublinhar que nem todas as crianças manifestam sofrimento de forma evidente. Algumas apresentam um desempenho académico aparentemente adequado e comportamentos ajustados, enquanto carregam internamente elevados níveis de ansiedade ou culpa.

 

O peso invisível da culpa

Uma das consequências menos compreendidas da exposição à violência doméstica é a tendência das crianças para assumirem responsabilidades que não lhes pertencem. Muitas acreditam que poderiam ter evitado a discussão, protegido um dos pais ou comportando-se melhor para impedir a violência.

 

Esta sensação de responsabilidade pode acompanhar a criança durante anos e influenciar a forma como constrói relações futuras. Algumas tornam-se excessivamente cuidadoras dos outros; outras desenvolvem dificuldades em confiar, estabelecer limites ou reconhecer comportamentos abusivos.

 

Os impactos podem prolongar-se na vida adulta?

 

A resposta é sim, sobretudo quando a exposição é prolongada e não existe intervenção adequada. Diversos estudos têm demonstrado uma associação entre experiências adversas na infância e um maior risco de desenvolver dificuldades emocionais e problemas de saúde física e mental ao longo da vida.

 

Adultos que cresceram em ambientes violentos apresentam, com maior frequência, sintomas de ansiedade, depressão, perturbação de stress pós-traumático, dificuldades relacionais e maior vulnerabilidade ao stress. Existe também um maior risco de perpetuação dos padrões relacionais aprendidos, quer assumindo o papel de vítima, quer reproduzindo comportamentos abusivos.

 

Contudo, é fundamental transmitir uma mensagem de esperança: exposição não significa destino. Uma experiência traumática não determina, por si só, o futuro de uma criança.

 

O que ajuda a proteger as crianças?

 

A presença de pelo menos um adulto emocionalmente disponível e seguro constitui um dos mais importantes fatores de proteção no desenvolvimento infantil. As crianças têm uma enorme capacidade de recuperação quando encontram relações que lhes permitem sentir-se vistas, protegidas e compreendidas.

 

Algumas estratégias fundamentais incluem:

 

  • Garantir a segurança física e emocional da criança;

  • Validar os seus sentimentos e preocupações;

  • Explicar, de forma adequada à idade, que a violência nunca é culpa da criança;

  • Promover rotinas previsíveis e consistentes;

  • Procurar apoio psicológico especializado sempre que necessário;

  • Envolver a escola e outros adultos significativos na rede de suporte.

 

Os educadores e professores desempenham igualmente um papel essencial. Muitas vezes, são os primeiros adultos a identificar alterações emocionais ou comportamentais que podem sinalizar sofrimento psicológico.

 

Conclusão

A violência doméstica não acontece apenas entre adultos. Sempre que uma criança cresce num ambiente marcado pela violência, ela também é afetada. Proteger as crianças implica reconhecer que o seu bem-estar emocional é tão importante quanto a sua segurança física.

 

Enquanto sociedade, precisamos de abandonar a ideia de que as crianças "não entendem". Elas entendem o medo. Entendem a tensão. Entendem o silêncio que se instala depois de uma agressão. E, sobretudo, sentem os seus efeitos.

 

Quando protegemos um adulto vítima de violência doméstica, estamos também a proteger uma criança. Quando intervimos precocemente, estamos a oferecer a possibilidade de um desenvolvimento mais saudável e de relações futuras mais seguras.

 

Porque nenhuma criança deveria crescer a aprender que amar implica ter medo.

 

Marta Neto |Psicóloga, Cédula Profissional OPP-29547|

 

Referências Bibliográficas:

·       World Health Organization (2024). Violence against children: Key facts.

·       American Psychological Association. Effects of Domestic Violence on Children.

·       Centers for Disease Control and Prevention. Adverse Childhood Experiences (ACEs).

·       National Scientific Council on the Developing Child. Excessive Stress Disrupts the Architecture of the Developing Brain.

·       Holt, S., Buckley, H., & Whelan, S. (2008). The impact of exposure to domestic violence on children and young people: A review of the literature.

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