Impacto Social: O Antídoto para a Ansiedade Jovem
- Marta Neto

- há 2 horas
- 4 min de leitura

Os números são claros e merecem uma reflexão séria. Os dados divulgados relativos ao ano letivo 2022/2023 revelam que 45,4% dos adolescentes avaliados apresentavam sintomatologia depressiva, enquanto 30,1% evidenciavam sinais de depressão moderada a grave.
Torna-se evidente a importância da prevenção e da promoção da saúde mental em contexto escolar, familiar e comunitário, mas acima de tudo é imperativo atuar de forma eficaz na mitigação do problema e no apoio aos nossos jovens.
Não existem soluções mágicas para esta questão, mas existem caminhos.
Propõe-se então que a escola se torne uma incubadora de soluções sociais e o aluno num empreendedor de impacto. Tudo se torna mais claro com exemplos de projetos, cujo objetivo último será o impacto psicológico nos nossos jovens e, inevitavelmente na sociedade.
O Valor da Utilidade
Projeto: Os alunos são desafiados a "traduzir" o mundo digital para a geração mais velha da comunidade:
Configurar dispositivos para pessoas com dificuldades visuais ou motoras (aumentar fontes, configurar comandos de voz).
Criar manuais visuais simplificados para que os idosos consigam fazer videochamadas com a família ou aceder a serviços de saúde.
Ensinar a identificar burlas e phishing, protegendo o património dessas pessoas.
Impacto Psicológico: A sensação de ser o "suporte" de alguém mais vulnerável gera um sentido de responsabilidade que é incompatível com a apatia depressiva. Ele sente que, se ele não estivesse lá, aquela ponte de comunicação não existiria.
O Valor da Comunidade
Projeto: Em vez de uma horta escolar fechada, os alunos criam e gerem um espaço de cultivo aberto à comunidade local (vizinhos, reformados da zona, outras turmas).
Impacto Psicológico: O isolamento digital nos jovens é alimentado pela comparação constante e pela falta de toque na realidade física. Ao trabalhar na terra com outros, o aluno sente-se parte de um "todo" maior. Estudos mostram que ter uma comunidade física forte é o maior preditor de resiliência contra crises depressivas.
Estudos da neurociência mostram que, durante a adolescência, o cérebro está especialmente "programado" para a aceitação social. Quando essa necessidade de pertença é canalizada para projetos de valor comunitário, o jovem substitui a validação vazia das redes sociais pela validação profunda do impacto real.
O Valor da Expressão e Memória
Projeto: A criação de um mural de resiliência comunitária. Os alunos identificam pessoas na comunidade que superaram grandes crises (económicas, de saúde ou sociais) e transformam essas histórias num projeto artístico público — pode ser um mural de grafite, uma exposição fotográfica ou um até um livro. Entrevistar, sintetizar a narrativa e criar a peça artística que será exposta na comunidade.
Impacto Psicológico: A depressão muitas vezes manifesta-se como uma sensação de que "nada faz sentido" ou de que "o sofrimento é eterno". Ao ouvir como outros superaram dificuldades, o jovem ganha perspetiva histórica e emocional sobre a sua própria dor. Criar algo belo a partir de uma história de dor (sublimação) dá ao aluno uma ferramenta poderosa de processamento emocional. Ele percebe que a arte e a comunicação são formas de dar sentido ao caos.
O Valor da Autoeficácia
Projeto: Encontrar soluções para problemas na comunidade. Este é um projeto de processo. Os alunos podem percorrer quatro etapas:
Auscultação: Identificam problemas locais (ex.: o lixo à porta da escola, o jardim abandonado, a falta de segurança na passadeira).
Investigação: Saem à rua para ouvir os vizinhos e entender o lado humano do problema.
Proposta de Valor: Desenham um protótipo ou ação (ex.: uma campanha de sinalização criativa feita por eles ou um sistema de vizinhos que vigiam a limpeza da rua).
Entrega: Apresentam a solução num evento público, ganhando assim o apoio da comunidade.
Impacto Psicológico: Sair de si mesmo para ouvir o outro quebra o ciclo de autocomiseração, típico da depressão. O jovem descobre que os seus problemas e os dos outros estão ligados. O "fazer nós próprios" alivia a sensação de abandono. Quando um jovem apresenta uma ideia e é aplaudido pela comunidade, o cérebro recebe uma dose massiva de autoestima real — não baseada em likes, mas em respeito social e capacidade de transformação.
Conclusão
A educação e a saúde mental dos nossos jovens, enfrentam hoje, o seu maior desafio de sempre. No entanto, como vimos, o diagnóstico não tem de ser a sentença.
Fazer diferente não exige orçamentos colossais ou reformas curriculares morosas; exige uma mudança de perspetiva. Exige que olhemos para cada aluno não como um depósito de informação para um teste, mas como um potencial agente de ação para a sua comunidade.
A verdadeira resiliência mental nasce do sentido de utilidade. Ao darmos aos nossos jovens o "leme" para resolverem problemas reais, estamos a dar-lhes o antídoto mais poderoso contra o vazio existencial.
Marta Neto |Cédula Profissional, Nº 29547|
Referências Bibliográficas:
Matos, M. G., Camacho, I., Reis, M., & Equipa Aventura Social. (2018). O bem-estar e a saúde mental dos adolescentes portugueses. Universidade de Lisboa, Faculdade de Motricidade Humana. https://repositorio.ulisboa.pt/handle/10451/38058
OECD. (2021). OECD future of education and skills 2030: OECD learning compass 2030. OECD Publishing. https://www.oecd.org/education/2030-project/teaching-and-learning/learning/
Programa Mais Contigo. (2023). Relatório de avaliação do ano letivo 2022/2023 [Relatório técnico]. https://www.maiscontigo.pt
Tomé, G., Matos, M. G., Camacho, I., Gomes, P., & Reis, M. (2024). Positive youth development, mental stress and life satisfaction in Portuguese adolescents. Children, 11(6), 681. https://doi.org/10.3390/children11060681
UNESCO. (2021). Education for sustainable development: A roadmap. UNESCO Publishing.

Comentários