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O silêncio das crianças: ausência ou forma de expressão?

  • Foto do escritor: Marta Neto
    Marta Neto
  • há 2 horas
  • 3 min de leitura


Há um desconforto silencioso e muitas vezes inconsciente que surge quando uma criança não fala. Na sala de aula, em casa, ou em contextos sociais, o silêncio infantil tende a ser interpretado como desinteresse, timidez excessiva ou até dificuldade de aprendizagem. Mas será que o silêncio é, de facto, um problema? Ou estaremos perante uma forma legítima e até essencial de expressão e desenvolvimento?


O silêncio também comunica

Contrariamente à ideia comum, o silêncio não é vazio. Na infância, pode ser uma forma rica de comunicação. As crianças nem sempre expressam o que pensam ou sentem através de palavras, e isso não significa ausência de pensamento.

O psicólogo Lev Vygotsky defendia que o desenvolvimento do pensamento está profundamente ligado à linguagem, incluindo aquilo que designou como “fala interna”. Antes de se tornar discurso verbal, o pensamento organiza-se internamente, muitas vezes em silêncio.

Assim, o silêncio pode representar um momento de construção cognitiva: a criança observa, interpreta e atribui significado ao mundo antes de o verbalizar.


Nem todas as crianças participam da mesma forma

Em contexto educativo, tende a valorizar-se a participação verbal: responder rapidamente, intervir, fazer perguntas. No entanto, esta expectativa nem sempre respeita a diversidade dos estilos de aprendizagem.

O psicólogo Jerome Bruner destacou a importância do contexto e da interação na aprendizagem, mas também reconheceu que cada criança constrói o conhecimento de forma singular. Algumas necessitam de mais tempo de processamento, outras preferem observar antes de agir.

Mais recentemente, a investigadora Susan Cain (2012), trouxe para o debate público a valorização dos perfis introvertidos, frequentemente associados a uma maior reflexão interna e menor necessidade de exposição verbal. Segundo a autora, ambientes que privilegiam apenas a expressão oral podem silenciar paradoxalmente muitas crianças.


O silêncio como regulação emocional

O silêncio pode também assumir uma função emocional. De acordo com o psiquiatra Daniel Siegel, o cérebro da criança está em desenvolvimento e a capacidade de autorregulação constrói-se gradualmente. Em situações de sobrecarga emocional, o silêncio pode surgir como uma estratégia de proteção e organização interna.

Nestes momentos, a criança não está simplesmente “calada”, está a tentar gerir aquilo que sente, ainda sem recursos suficientes para o expressar verbalmente.


Quando o silêncio merece atenção

Importa, no entanto, distinguir o silêncio que faz parte do desenvolvimento daquele que pode sinalizar dificuldade.

O silêncio persistente, associado a ansiedade intensa ou evitamento social, pode estar relacionado com condições como o mutismo seletivo. Nestes casos, a criança quer falar, mas sente-se incapaz de o fazer em determinados contextos.

A investigação nesta área sublinha a importância de uma intervenção precoce, sensível e não coerciva, que respeite o ritmo da criança.


O papel dos adultos: escutar para além das palavras

Pais e educadores desempenham um papel fundamental na forma como o silêncio é interpretado. Quando o silêncio é visto apenas como um problema, corre-se o risco de pressionar a criança e aumentar o seu desconforto.

Inspirados pelas abordagens desenvolvimentais e relacionais, é essencial:

  • criar ambientes seguros e previsíveis

  • valorizar diferentes formas de expressão (desenho, escrita, brincadeira)

  • esperar por uma resposta

  • praticar uma escuta ativa, mesmo na ausência de palavras

Como sugere Daniel Siegel, a conexão precede a comunicação: a criança fala mais facilmente quando se sente compreendida.


Revalorizar o silêncio

Vivemos numa cultura que privilegia a rapidez, a resposta imediata e a visibilidade. Neste contexto, o silêncio pode ser interpretado como falha.

No entanto, à luz da psicologia do desenvolvimento e das neurociências, o silêncio é muitas vezes um espaço de crescimento invisível.

Reconhecê-lo como parte integrante do desenvolvimento infantil é um passo essencial para uma educação mais inclusiva, mais sensível e mais ajustada à diversidade das crianças.


Porque, por vezes, é no silêncio que a criança mais está a dizer.


Referências Bibliográficas

Bruner, J. (1996). The Culture of Education. Harvard University Press. Cain, S. (2012). Quiet: The Power of Introverts in a World That Can't Stop Talking. CrownPublishing.

Siegel, D. (2012). The Developing Mind (2nd ed.). Guilford Press. Vygotsky, L. (1978). Mind in Society. Harvard University Press.


Marta Neto Psicóloga |Cédula Profissional 29547|

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