• Alexandra Gomes

O Crescimento Pós-Traumático

A sua alegria é a sua tristeza desmascarada.

E o mesmo poço de onde o seu riso emerge,

Estava, muitas vezes, cheio com as suas lágrimas.

E como poderia ser de outra maneira?

Quanto mais fundo a sua tristeza escava, mais alegria pode conter.

(O Profeta, de Khalil Gibran)

Quando se perde alguém que se ama, a dor é indescritível, dada a sua intensidade. A pessoa que fica é, muitas vezes, incapaz de contemplar a vida sem o falecido.


No entanto, nas fases seguintes, o que acontece a seguir varia muito entre cada um. Alguns nunca recuperam a perda; outros seguem em frente depois de um período de pesar e são capazes de funcionar como antes; por último, há os que passam pelo “crescimento pós-traumático”i, em que a perda transforma essas pessoas de forma profunda e estas apreciam mais a vida, melhoram os seus relacionamentos e tornam-se mais flexíveis.


Todas estas pessoas sentiram uma dor insuportável, avassaladora, sem perspetiva de terminar, nos primeiros meses após a perda. No entanto, com o passar do tempo, para algumas pessoas, as suas feridas emocionais foram sendo curadas e, assim foram crescendo emocionalmente.


Mas como?


A explicação desta evolução assemelha-se ao crescimento cognitivo. Na evolução cognitiva, cada nova peça de informação (conhecimento) obtida é como um tijolo, assente num já existente. A estrutura de tijolos vai ficando maior e com o tempo começa a tornar-se instável e acaba por desmoronar. O desequilíbrio acontece, a velha construção desmorona-se, os tijolos caem ao chão e as ruínas tornam-se fundações de uma nova estrutura. Estas novas fundações são mais largas que as anteriores, o que permite uma estrutura mais alta. À medida que se torna mais alta, torna-se mais instável, desmorona-se e formam-se estruturas mais largas, e assim sucessivamente.


O modelo de desequilíbrio aplica-se, também, ao domínio das emoções. Cada experiência emocional é como um novo tijolo colocado em cima da nossa estrutura emocional existente. Após algum tempo, a estrutura torna-se demasiado alta para as suas fundações, os tijolos desmoronam-se e acontece o desequilíbrio emocional. Surgem novas fundações, desta vez com uma base mais larga e, portanto, mais sólidas e capazes de suportar uma carga maior.


Reportando para a metáfora do cano através do qual as emoções fluem, fundações mais largas equivalem a um cano maior, com maior capacidade para o fluxo das emoções, capaz de lidar efetivamente com quantidades maiores de sentimentos, dolorosos e agradáveis.


As experiências emocionais extremas levam a um desequilíbrio emocional acelerado e daí a um crescimento pós-traumático.

Sempre que se permite sentir, o indivíduo evolui. É por isso que as experiências mais intensas – momentos de felicidade, êxtase, suprema alegria – podem transformar a pessoa. Por exemplo, para algumas mulheres, a experiência do parto tornou-as mais autoconfiantes, felizes, calmas ou generosas. As experiências religiosas profundas também podem alterar a forma como se vê o mundo. As experiências emocionais extremas, negativas e positivas, promovem a oportunidade de crescimento, mas não o induzem automaticamente. Para que isso aconteça é necessário acolher as emoções, sem resistência, que essas experiências provocam.


Por outro lado, há os chamados dogmáticos emocionais. Nada mais do que aqueles que se fecham a qualquer variação emocional que as experiências geram em si; são pessoas que não se permitem sentir emoções fortes, suprimem os seus sentimentos, na vã tentativa de manter o fluxo constante de emoções positivas. Nestes casos, o que acontece é a estagnação emocional e a pessoa não evolui e as suas emoções reprimidas vão-se manifestando desadequadamente no seu ciclo de vidaii.

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