Resolução de Conflitos entre Crianças: Mediação Emocional e Comportamental
- Viviana Marinho

- 14 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
O Conflito como Oportunidade de Aprendizagem
O conflito é uma ocorrência natural e inevitável nas relações entre crianças. Longe de ser um evento puramente negativo, a forma como os conflitos são mediados e resolvidos constitui uma das mais ricas oportunidades de aprendizagem para o desenvolvimento de competências socioemocionais. A intervenção do adulto não deve focar-se em identificar um culpado ou impor uma punição, mas sim em equipar as crianças com ferramentas para gerir as suas emoções e negociar soluções de forma autogerida.
A mediação eficaz baseia-se em dois pilares interligados: a Mediação Emocional (validar e acalmar o sistema nervoso) e a Mediação Comportamental (estruturar a negociação e a resolução prática).
I. Pilar Emocional: Acalmar para Compreender
A intervenção no momento agudo do conflito deve sempre começar pelo polo emocional. Uma criança sob stress emocional não tem acesso às funções cognitivas superiores necessárias à negociação.
Validação e Normalização da Emoção
Antes de se abordar o comportamento, é crucial validar a experiência emocional de cada criança, separando o sentimento da ação:
Instrução: Utilizar frases de validação: "Eu vejo que estás zangado(a) porque querias o brinquedo agora," ou "É normal estares triste por ele te ter tirado o teu desenho."
Propósito: Ao nomear e aceitar a emoção, o adulto diminui a sua intensidade e ensina a criança a identificar o seu próprio estado interno, um primeiro passo para a autorregulação.
Técnicas de Ancoragem e Regulação
O adulto deve modelar e facilitar estratégias de regulação (Mindfulness) antes de prosseguir:
Pausa e Respiração: Liderar um breve exercício de respiração: "Vamos parar, colocar as mãos na barriga e fazer três respirações lentas para que o nosso corpo volte a ficar calmo."
II. Pilar Comportamental: Estruturar para Negociar
Uma vez que as crianças estejam emocionalmente recetivas, a mediação move-se para a fase comportamental, focada na resolução do problema e na tomada de perspetiva.
Tomada de Perspetiva e Empatia
O objetivo é ajudar as crianças a ver o lado do outro, ativando a empatia cognitiva:
Instrução: Pedir a cada criança que descreva a situação e o seu sentimento, garantindo que a outra ouve sem interromper. "Podes repetir o que o teu amigo disse? Como é que achas que ele se sentiu quando isso aconteceu?"
Propósito: Esta técnica quebra o foco egocêntrico no próprio desejo e força a criança a reconhecer a perspetiva do par.
Negociação e Formulação de Soluções
O adulto atua como um facilitador neutro, não como um juiz, capacitando as crianças a encontrar a solução:
Instrução: Sugerir que as crianças pensem em três soluções possíveis que sejam aceitáveis para ambos. O adulto deve evitar dar a resposta, preferindo o questionamento: "O que é que podes fazer diferente da próxima vez? O que é que resulta para os dois?"
Propósito: A participação ativa na resolução desenvolve o sentido de autoeficácia na resolução de conflitos e a responsabilidade pela manutenção da solução.
III. Prevenção e Reforço Pós-Conflito
A mediação não termina com a solução, deve haver um reforço positivo das competências adquiridas.
Reforço do Comportamento Prossocial
Instrução: O adulto deve elogiar o processo, e não a solução: "Fico muito orgulhosa por terem respirado antes de gritar. Isso foi um sinal de grande coragem e ajudou-vos a encontrar uma solução."
Propósito: Reforça o uso das ferramentas de regulação e valida a competência social demonstrada.
Conexão entre Pares
Incentivar um gesto de reconciliação (se ambas as partes estiverem confortáveis), como um pedido de desculpa ou um abraço. Isto ajuda a fechar o ciclo emocional do conflito de forma positiva.
O Mediador como Modelo
A resolução de conflitos entre crianças é um processo de aprendizagem que exige que o adulto seja um modelo de calma e clareza estrutural. Ao aplicar consistentemente as abordagens de mediação emocional e comportamental, os cuidadores e educadores transformam momentos de stress em oportunidades de desenvolvimento da empatia, da regulação e da resiliência, preparando as crianças para lidar com a complexidade das relações sociais.


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