• Joana Bastos

Tem mais de 4 anos e gagueja?


A gaguez caracteriza-se como uma perturbação ao nível da fluência da fala que afeta a eficácia da comunicação, interferindo emocionalmente na pessoa que gagueja e na sua interação comunicativa. Poderá ser mais evidente em momentos de medo, ansiedade, stress, na mudança de rotinas, assim como na presença de desconhecidos. É facilmente percebida pelos interlocutores, pela observação dos comportamentos primários e secundários que demonstra. Os comportamentos primários são: repetição de sons, sílabas ou palavras, prolongamento de um som e/ou bloqueio. Os comportamentos secundários são consequência dos primários, aparecendo quando a pessoa tem consciência do seu problema, com o objetivo de evitar ou eliminar a gaguez. Podem ser de escape, em que para acabar com um momento de gaguez este é associado a um movimento corporal, como piscar o olho; e de evitamento, realizados antes de se gaguejar, como por exemplo evitar palavras, falar em público ou cruzar-se com pessoas conhecidas, e ainda utilizar sinónimos.


Durante a infância, e ao longo do desenvolvimento linguístico da criança, podem surgir hesitações no discurso, dando-se o nome de Disfluência do Desenvolvimento ou Disfluência Infantil. Esta ocorre principalmente entre os 3 e os 5 anos e, na maior parte dos casos dissipa-se, sendo uma fase transitória e não permanente para a idade adulta.


Há várias causas para a Disfluência. O desenvolvimento linguístico da criança poderá estar mais avançado relativamente ao desenvolvimento das estruturas, isto é, a criança não consegue expressar com uma fluência correta aquilo que deseja, uma vez que necessita de organizar corretamente o discurso antes de o expressar; juntando a agravante da possibilidade de existir mudanças ambientais na vida da criança ou de as exigências do ambiente serem demasiado elevadas face às competências da criança naquele momento. Outra causa é o fator genético e hereditário no caso de haver pessoas na família que gaguejam.


Deste modo, a fluência da fala poderá estar afetada.


Não existindo cura para a gaguez, mas sim tratamento, é possível contorná-la para diminuir o impacto na vida da criança. O Terapeuta da Fala poderá fornecer ferramentas para que a criança que gagueja desenvolva atitudes positivas relativamente ao seu problema e aumente a fluência do seu discurso, tornando a sua comunicação mais efetiva. Tão importante como o acompanhamento técnico é o acompanhamento familiar da criança com vista a proporcionar segurança e confiança nos momentos de fala. Isto porque quando a criança se começa a aperceber que gagueja, sabe que há algo de diferente nela e sente-se frustrada, pois nem sempre consegue transmitir o que pretende. Estes sentimentos provocam nela receio de falar e não corresponder ao que os outros esperam de si, tornando-se insegura.

Existem alguns comportamentos a ter em conta que podem ser adotados em ambiente familiar e escolar. Primeiro, a criança deve saber que percebemos aquilo por que passa e que não há problema em gaguejar. Segundo, os pais não devem culpar-se pela gaguez da criança pois ficam ansiosos e poderão transmitir-lhe essa ansiedade. É importante assim adotar as seguintes estratégias em casa e em contexto escolar:


· Ler e falar calmamente e pausadamente com a criança;

· Utilizar linguagem adequada à sua faixa etária;

· Não demonstrar ansiedade quando ela gaguejar, manter uma expressão facial tranquila, demonstrando que tem tempo e está atento à mensagem que ela está a transmitir;

· Esperar que ela fale e termine o que tem a dizer, não a interromper ou acabar a sua frase, mesmo quando já sabe o que ela irá dizer;

· Não se focar na forma como a criança transmite a mensagem, mas sim no conteúdo;

· Quando não perceber o que a criança diz, em vez de perguntar, repita o que percebeu para que ela complete;

· Deverá deixá-la à vontade para falar, sem a pressionar, dizendo para pensar primeiro no que pretende dizer;

· É importante fazer comentários encorajadores que promovam a conversa em vez de perguntas, que deixam a criança mais nervosa;

· Manter o contacto ocular, mesmo se a criança o desviar, tentando colocar-se à sua altura;

· Reforçar e reformular as frases da criança sem focar exatamente o erro;

· Não dar uma grande importância à gaguez mas também não a ignorar;

· Sensibilizar as pessoas próximas da família a serem bons ouvintes;

· Dedicar diariamente tempo de atividade conjunta, nomeadamente leitura e jogos coletivos;

· Não tratar a criança que gagueja de maneira diferente relativamente a outras crianças;

· Ser um bom modelo, usar uma fala mais lenta e com mais pausas;

· Elogiar a comunicação da criança e demonstrar como é agradável ouvir o que a criança tem para dizer.

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