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  • Alexandra Gomes

Bullying: o olhar do agressor

O Bullying continua a estar presente nas escolas e parece mais forte e imprevisível. São cada vez mais as ações de sensibilização, as diretrizes de atuação e os manifestos da comunidade.


O texto que se segue é da autoria do José (nome fictício), um agressor que decidiu partilhar o seu lado, não esperando perdão ou diminuição do mal que provocou nas vítimas, mas, apenas o conhecimento do seu lado, da sua dor, do mundo como ele o via.


“Eu sou o José e assumo o papel de agressor na prática do Bullying. Quando penso no miúdo que era e em quem me tornei, envergonho-me. Eu era um miúdo pacato, a viver a minha vida. Nunca dei problemas em casa ou na escola. Era considerado um miúdo pacífico, bem-comportado, não contrariava ninguém, aceitava o que me transmitiam e tolerava quando me diziam que sabiam o que era melhor para mim. Os meus pais trabalhavam muito e à noite, quando não havia um silêncio que até fazia doer os ouvidos, discutiam sei lá eu porquê e, não poucas vezes – até porque eu não dava trabalho – não mostravam grande interesse em mim, em como eu estava. Agora percebo eu que, para compensar essa falta de interesse, davam-me os presentes que eu pedia e os que eu não pedia. “Que não te falte nada”, diziam-me eles. Mas faltava-me… faltava-me a sua atenção, o ralhete que eu merecia, faltavam-me os seus abraços, faltava-me sentir-me importante nas suas vidas. Os meus pais justificavam estas “faltas” e a sua dedicação ao trabalho com a máxima, quase em tom de indignação: “para que não te falte nada”. Mas faltava-me tanto… Os anos foram passando, a minha panela foi enchendo e eu comecei a ficar mesmo irritado com a ausência já não sabia de quê. Quando não estavam enchiam-me de presentes e eu, não poucas vezes, sentia uma raiva de mim, pois não percebia (ou não queria perceber) porque não conseguia ficar feliz com tudo o que eles me davam. Comecei a responder-lhes torto e eles falavam pior para mim, acabando por me sentir ainda mais frustrado. A minha raiva era tanta que já não cabia dentro de mim e tinha que a deitar fora. Andava no 8º ano e tornei-me popular por ser “do contra”: contra a escola, contra os professores, contra as auxiliares e contra os que não eram “do contra”. Estes últimos eram o ideal para eu deitar essa raiva fora e fazê-los sentir frágeis, com medo, tristes e até um pouco irados. Todos os que não eram “do contra” eram o alvo ideal para as minhas/nossas investidas: desde o que usava óculos, ao que era mais baixo, ao que parecia um menino “atinadinho”, até aquele que simplesmente estava quieto. Desde insultar, até dar um “cachaço”, um pontapé e, se respondesse, então dávamos-lhe uma valente sacudidela. Tudo era um meio para deitarmos a nossa raiva fora. Isto, que nem sei como lhe chamar, durou mais ou menos um ano. A última vez foi talvez a pior. Estávamos com tanta raiva que apanhámos um miúdo e não tivemos noção do quanto lhe estávamos a magoar. Ele ficou tão mal que desmaiou, foi para o hospital e esteve em coma duas semanas. Ao ver e saber deste desfecho apercebi-me que a raiva que deitava fora não me fazia sentir melhor ou ter a atenção dos meus pais. A raiva não anula a raiva, pelo contrário…torna-a mais forte e mais descontrolada. Na terceira semana, sem que ninguém soubesse, fui visitar o Pedro (era esse o seu nome). Ele já tinha saído do coma, mas ainda precisava de estar no hospital. Quando me viu, ficou tão assustado que quase gritou… Eu, assustado também, senti o meu coração a apertar e a doer tanto, tanto que não consegui conter as lágrimas. Chorei, chorei, chorei e a única palavra que me saía da boca, repetidamente, era “desculpa, desculpa, desculpa…”. Como pude ser tão cruel e tão cego por acreditar que a raiva que tinha dentro de mim ia melhorar pelo medo, pela tristeza e pela raiva que criava nos outros? Desde esse dia (confesso que não foi fácil) consegui que o Pedro, aos poucos, confiasse em mim e me perdoasse. Nunca eram suficientes, para mim, as visitas que lhe fazia diariamente, ao hospital e depois a casa; mesmo sendo mais novo, o Pedro ensinava-me muitas coisas e eu ajudava-o a estudar as matérias que a sua turma ia aprendendo na escola. Tudo o que ele precisava eu estava pronto para o ajudar. Passou-se quase um ano e continuo a estar com o Pedro e com muito orgulho por ser seu amigo. Foi o Pedro quem me deu a maior prova do seu amor: deu-me atenção, fez-me sentir importante na sua vida, deu-me abraços sentidos, também me deu alguns ralhetes e salvou-me com a sua coragem e o seu perdão! Obrigado, Pedro.”

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