• Alexandra Gomes

Entrar na Escola com 5 anos de idade: olhares e sentires na 1ª pessoa

Para toda a regra há a exceção e são as exceções que movem o Mundo!


Em resposta ao artigo publicado no dia 02 de setembro, intitulado “Entrada na Escola com 5 anos: porque nim”, fica a partilha e o desabafo de quem vivenciou a entrada no 1º Ciclo do Ensino Básico, com 5 anos de idade, acabados de fazer.


O seu nome (fictício) é João e tudo aconteceu em finais do século passado. Parece que já lá vai muito tempo, mas, aos olhos de uma parte significativa dos leitores, aconteceu “num outro dia”.


O João havia completado 5 anos no mês anterior ao do início das aulas e até então, das suas memórias, guarda os momentos de aprendizagem maravilhosos que passou com a sua avó. Através dela conheceu as Leis e os Valores mais preciosos da Humanidade, como respeito, resiliência, gratidão, integridade, generosidade, amor pleno e felicidade. Com 5 anos, já conhecia e gostava de saber ainda mais sobre os mistérios da Natureza: desde a Energia das árvores, ao Universo dos insetos, desde a imensidão do céu à solidez da terra. Tudo era fantástico e a vontade de aprender era muita!


Segundo o João, a entrada no 1º Ciclo com 5 anos acabados de fazer, “podia ter corrido muito mal, mas o que me podia enfraquecer, ajudou-me e protegeu-me”.


Pelas palavras do João, “eu era muito alto e ser fisicamente grande permitiu-me escapar ao atual bullying do mais pequeno ou do bebé. Ajudou-me, também, ter um professor equitativo e compreensivo, o que me possibilitou a entrada na escola como sendo igual aos meus colegas, com o mesmo grau de exigência… Lembro-me do meu primeiro dia de escola como se tivesse sido hoje. E quem lá me levou foi a minha querida avó. Em casa, os meus pais faziam por suavizar o sentido défice de 1 ano – o fantasma que me perseguiu durante os primeiros 3 ciclos escolares. Cheguei ao 5º ano com 9 anos de idade e varejei muito nesse primeiro período… As minhas emoções pareciam desorientadas e aí senti imensas dificuldades de adaptação… eram tantos os professores, depois de 4 anos com apenas 1 professor! Ainda no 1º Ciclo só tinha aulas de manhã, das 08 às 13h, o que propiciava os tempos livres fundamentais. Chegava a casa às 13h30 e até às 14h almoçava ao som dos parodiantes de Lisboa, no rádio da cozinha. Até às 15h, com a duração de apenas 1 hora, era tempo de realizar os TPC’s e o tempo seguinte, o tempo livre, passava deliciosamente devagar. Quanto às minhas capacidades, efetivamente não senti dificuldade do 1º ao 4º ano, dando nota que o ensino não era agressivamente rápido e o meu saudoso professor ensinava-nos a pensar, fomentava o espírito de turma e não colocava num pedestal os melhores alunos; inclusive permitia que os que sabiam mais ajudassem os que sabiam menos, por isso, dei e recebi muitas aulas aos meus colegas. A ida para o 1º ano, com 5 anos de idade foi, para mim, um estímulo e uma lufada de ar fresco. Embora já soubesse algumas coisas, pelo ensinamento da minha avó, mediante o meu potencial desinteresse, o professor evitava-o, estimulando-me mais um exercício. A dimensão da turma também ajudava… éramos 15 alunos, o que permitia um trabalho mais personalizado e que não me distraísse ou me fizesse sentir enfadado, permitindo-me até ler os livros que eu próprio levava. Recordo-me, com carinho, que na última sexta-feira de cada mês, o professor criou a Hora do Conto, onde cada um escolhia um conto para ler nesses dias, seguindo-se de uma análise e de um debate, ajustados à nossa idade. Comparativamente aos dias de hoje, eu andava na catequese e pouco mais. Nem tanto, nem tão pouco. E isso proporcionava-me tempo livre de qualidade, em que o tempo era rentável e os momentos felizes, até hoje bem recordados. As minhas competências pessoais e sociais desenvolveram bastante com a entrada precoce no contexto escolar: sendo eu filho único, com a entrada na escola, vi desenvolvidas competências como a expressão de afetividade, partilha, tolerância, interação social e trabalho em equipa. Aquela, acabou por ser uma escola e uma experiência em que eu ia com vontade e boa disposição! Hoje, olho para as crianças e vejo-as prisioneiras da sua casa, dos carros dos pais, dos jogos eletrónicos e de um infindável leque de atividades e eu, uma criança privilegiada: ao ar livre, sem carro, a jogar à bola, ao pião e ao berlinde e, acima de tudo, livre e com tempo para fazer dele o que sempre quis!”

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