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O perfeccionismo como bloqueador da ação

  • Foto do escritor: Viviana Marinho
    Viviana Marinho
  • há 1 hora
  • 3 min de leitura

“Só começo quando souber exatamente como fazer.”

“Ainda não está suficientemente bom.”

“Prefiro não fazer a fazer mal.”


À primeira vista, o perfeccionismo pode parecer uma qualidade. Está associado à exigência, rigor, dedicação e vontade de fazer bem. E querer melhorar aquilo que fazemos não é, por si só, um problema.


A dificuldade surge quando fazer bem deixa de ser um objetivo e passa a ser uma condição para agir.

Nesse momento, o perfeccionismo pode deixar de impulsionar e começar a bloquear.


Quando querer fazer bem nos impede de começar

Imagine que precisa de realizar uma tarefa importante. Antes de começar, pensa em tudo aquilo que pode correr mal, no resultado que gostaria de alcançar e na forma ideal de o fazer.


Quanto mais pensa, maior parece a tarefa.

Então adia.


Não necessariamente por falta de vontade ou de responsabilidade, mas porque começar significa aceitar uma possibilidade desconfortável: aquilo que fizer pode não corresponder às suas expectativas.

É por isso que, por vezes, aquilo que interpretamos como procrastinação pode estar relacionado com perfeccionismo.


O pensamento deixa de ser:

  • “Vou começar e melhorar ao longo do caminho.”

E passa a ser:

  • “Só posso começar quando tiver a certeza de que vou fazer bem.”

O problema? Essa certeza raramente chega.

  • “Mas querer fazer tudo bem é assim tão negativo?”


Não. Existe uma diferença importante entre procurar fazer bem e sentir que temos de fazer tudo perfeitamente.

Uma pessoa pode ser exigente consigo própria e, ainda assim, aceitar erros, ajustar expectativas e reconhecer quando algo está suficientemente bom.


O perfeccionismo torna-se limitador quando o erro é vivido como algo intolerável, quando existe uma preocupação excessiva com a avaliação dos outros ou quando o resultado nunca parece satisfatório.


Pode surgir então um ciclo:

expectativas muito elevadas → medo de não corresponder → adiamento → pressão → culpa → ainda mais exigência.

E aquilo que começou como vontade de fazer melhor acaba por tornar muito mais difícil fazer.


O perfeccionismo nem sempre parece perfeccionismo

É fácil imaginar uma pessoa perfeccionista como alguém extremamente organizado, produtivo e com resultados excelentes.

Mas nem sempre é assim.


O perfeccionismo também pode aparecer em quem demora demasiado tempo a terminar uma tarefa, revê constantemente o mesmo trabalho, tem dificuldade em tomar decisões, evita desafios novos ou desiste quando percebe que poderá não alcançar o resultado ideal.


Nas crianças e jovens, podemos observá-lo quando apagam repetidamente uma resposta, ficam muito frustrados com pequenos erros, evitam participar por receio de responder incorretamente ou procuram constantemente confirmação:

  • “Está bem assim?”

  • “Tens a certeza?”

  • “Achaste que fiz bem?”

Por detrás da procura pelo resultado perfeito pode existir uma enorme insegurança relativamente à possibilidade de errar.


Porque é tão difícil aceitar o “suficientemente bom”?

Porque, para alguém muito perfeccionista, baixar uma expectativa pode parecer o mesmo que desistir.

Mas não é.


Nem todas as tarefas precisam do mesmo nível de investimento. Há momentos em que procurar melhorar faz sentido e outros em que continuar a corrigir acrescenta muito pouco ao resultado, enquanto consome tempo e energia.

Aprender a distinguir “isto precisa de ser melhorado” de “isto não está perfeito, mas cumpre o objetivo” é uma competência importante.


O “suficientemente bom” não significa falta de cuidado. Significa reconhecer que a perfeição tem um custo e nem sempre esse custo compensa.


Como sair do bloqueio?

Uma estratégia importante é diminuir a exigência sobre o primeiro passo.


Em vez de pensar “tenho de fazer um excelente trabalho”, experimentar:

  • “Vou apenas começar.”

Em vez de tentar escrever o texto perfeito:

  • “Vou escrever uma primeira versão, mesmo que precise de alterações.”

Em vez de esperar pela decisão perfeita:

  • “Vou tomar a melhor decisão possível com a informação que tenho neste momento.”

Também pode ajudar, estabelecer limites de tempo, definir antecipadamente o que significa uma tarefa estar concluída e resistir à necessidade de corrigir indefinidamente.


O objetivo não é deixar de ter padrões elevados. É impedir que esses padrões sejam tão rígidos que tornem impossível avançar.


Feito pode ser mais importante do que perfeito

Grande parte das coisas que fazemos melhora enquanto fazemos.

Aprendemos depois de começar. Corrigimos depois de experimentar. Desenvolvemos competências depois de cometer erros.

Esperar pela confiança, preparação ou condições perfeitas antes de agir pode significar, esperar indefinidamente.


Por isso, talvez a pergunta não seja:

  • “Como faço isto de forma perfeita?”

Mas:

  • “Qual é o primeiro passo que consigo dar, mesmo sem garantias de que vai correr exatamente como quero?”


Porque o perfeccionismo promete proteger-nos do erro, mas pode acabar por nos afastar da experiência.

E aquilo que nunca começamos por medo de não fazer perfeitamente também nunca tem oportunidade de se tornar melhor.

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