Os terríveis dois anos!
Esta, é uma expressão transversal a muitos pais com crianças cuja fase desenvolvimental completa os dois anos de idade. Comportamentos tradutores de egoísmo, birras e exigências permanentes, ainda que incómodos, são normais e até expectáveis. Nesta fase a criança sente que é, efetivamente, o centro de tudo aquilo que a rodeia e, por isso, “obviamente” o centro das atenções, incapaz de compreender a perspetiva dos outros. Esta atitude deve-se ao estádio de desenvolvimento cognitivo em que se encontra – estádio pré-operatório (2-7 anos) – segundo Jean Piaget. Este estádio é caracterizado pelo desenvolvimento do pensamento e do jogo simbólico, da imaginação, do aperfeiçoamento da linguagem e do egocentrismo. Trata-se de um perfil que, ainda que desafiante para os pais, é fundamental ao desenvolvimento da criança e expressa-se nos seguintes comportamentos, segundo a Psicóloga Laura Mitjana:
1. Ausência de empatia. Dificuldade em compreender as emoções e as perspetivas dos outros.
(Porque é positivo) A falta de empatia é uma oportunidade para ensinar à criança o que são emoções e especificamente o que é a empatia. Num ambiente seguro, a criança tem a oportunidade de expressar as suas emoções e aprender a ser empática através da observação dos adultos que a rodeia.
2. Necessidade de atenção permanente e manifestação de ciúmes, quando os outros recebem mais atenção.
(Porque é positivo) A necessidade de atenção é uma forma de expressar a necessidade de segurança e de vínculo emocional pela criança. Ao dar atenção à criança e validar os seus sentimentos ajuda a desenvolver uma vinculação segura pais-criança. desta forma, é aumentada a confiança e a autoestima da criança, fundamental para o seu desenvolvimento emocional e social.
3. Foco em si própria. Foco nos próprios interesses e necessidades, sem considerar o outro. A criança pode ficar persistente até ver atendidas as suas necessidades.
(Porque é positivo) O foco em si próprio é uma parte importante e natural para o desenvolvimento infantil, essencial para a construção de uma base sólida das suas identidade e autonomia. À medida que explora as suas preferências e os seus desejos, a criança está a desenvolver a própria identidade e, com o tempo, equilibra as próprias necessidades e as dos outros, desenvolvendo competências como a resolução de conflitos e a cooperação.
4. Dificuldades em partilhar.
(Porque é positivo) É saudável que a criança delimite quais as suas coisas e coloque limites saudáveis aos outros, protegendo-se. Os adultos devem monitorizar este processo, a fim de evitar que a criança se encerre em si própria e fique intransigente e intolerante.
5. Comunicação pouco efetiva. Dificuldade em comunicar as próprias necessidades e os próprios desejos, de forma clara e efetiva, derivado da dificuldade em entender que o outro é diferente, pensa diferente e sente diferente.
(Porque é positivo) Esta é uma oportunidade de ensinar à criança competências de comunicação, formas de expressão emocional e definição dos seus pontos de vista.
Passada esta fase, com cerca de 4 anos, é expectável que a criança tenha desenvolvido a linguagem, socialize melhor com os outros e, por isso, começa a compreender outros pontos de vista que não o seu.
O papel dos pais passa por acompanhar a criança nesta fase, de forma compreensiva e sem julgamento. Cognitivamente, a criança não tem a capacidade de se descentrar de si própria, necessita de tempo para aprender a empatizar com os outros e assim criar relações saudáveis e ajustáveis ao mundo real.
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